O que é uma EQM? Psiquiatra explica as experiências de quase-morte

Em entrevista exclusiva, o médico norte-americano Raymond Moody Jr. fala sobre as descobertas de sua pesquisa, de mais de quarenta anos, no campo.

Leila Marco e Josué Bertolin

27/07/2017 às 11h33 - quinta-feira | Atualizado em 27/07/2017 às 13h57

O que viram e sentiram os que estiveram no limiar da morte? Pessoas consideradas clinicamente mortas por alguns minutos afirmam, após se recuperar, ter sido transportadas para outra dimensão da existência. O assunto, classificado como experiência de quase-morte (EQM), intriga o ser humano desde tempos imemoriais e é objeto de pesquisa do psiquiatra, psicólogo, parapsicólogo e filósofo norte-americano Raymond Moody Jr. há mais de quatro décadas.

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Raymond Moody Jr., psiquiatra, psicólogo, parapsicólogo e fiósofo norte-americano.

O médico já entrevistou milhares de indivíduos — entre estes pacientes em estágio terminal em razão do câncer, da aids ou de outras doenças graves e aqueles que estiveram em coma por causa de acidente ou tentativa de suicídio — em várias partes do mundo, tendo identificado nos inúmeros relatos colhidos muitas semelhanças, mesmo em diferentes culturas e classes sociais. Todos com quem ele conversou narraram situações análogas às de um estado espiritual de consciência.

O Fórum Mundial Espírito e Ciência, da LBV, com suas atividades permanentes, tem fraternalmente reunido, desde 2000, especialistas das diversas áreas da sociedade para tratar desses assuntos de relevância, a exemplo da morte e da vida após ela. Como afirma seu criador, Paiva Netto: “Cizânia, radicalismos, hostilidades de todos os matizes devem permanecer afastados dos debates e das proposições religiosas, filosóficas, políticas, científicas, econômicas, artísticas, esportivas, e o que mais o seja, pois o ser humano nasce na Terra para viver em sociedade, Sociedade Solidária Altruística Ecumênica”.

Por isso, esta matéria apresenta os principais trechos da entrevista exclusiva que o dr. Moody concedeu à Super Rede Boa Vontade de Comunicação (rádio, TV, publicações e internet), na qual destacou o que tem observado ao longo desses anos de estudo acerca da EQM, bem como avaliou questões investigativas, éticas e de transformação existencial. Vale a pena ler a matéria e meditar sobre o tema, cujo conhecimento é de grande valor para toda a Humanidade.

DEFINIÇÃO DE EQM

Dr. Raymond Moody Jr. — Experiência de quase morte é uma forma de consciência transcendental ou um estado alternativo de consciência que acomete o indivíduo que se encontra em um estado fisiológico extremo. O coração pode parar, e a respiração também, mas, mesmo assim, do ponto de vista desse indivíduo, ele entra num estado muito profundo de consciência transcendental.

O QUE AS PESSOAS REVELAM AO VOLTAR DESSE ESTADO

Dr. Moody — Elas deixam o corpo físico, passam por um túnel e entram em uma dimensão sobre a qual todas — não importa quão articuladas e educadas sejam — dizem que simplesmente não existem palavras para descrever a sensação [do que sucede nela], pois isso está além do que pode ser expresso pela linguagem. Entram em uma dimensão que é muito mais real que a física, na qual estamos agora; percebem uma luz que traz muito conforto, alegria e amor; e encontram parentes ou amigos que morreram e que parecem estar lá para recebê-las, saudá-las e ajudá-las durante a transição. [Ao retornarem,] Contam que, em um instante, veem tudo que fizeram em um tipo de holograma e recapitulam cada ato de sua vida, não do ponto de vista que tinham quando aquela ação ocorreu. Em vez disso, elas se identificam empaticamente com quem interagiram naquele momento. Assim, caso se vejam realizando algo maldoso a alguém, sentem tristeza. Quando é algo gentil, vivenciam os bons sentimentos do que fizeram. Então, voltam dizendo que não têm mais medo da morte, porque a experiência que tiveram as convenceu de que o que chamamos de morte é uma transição para outra realidade, e que o importante nesta vida é aprender a amar. Já viajei por todos os continentes, exceto pela Antártida, e em todos os lugares ouço o mesmo tipo de história.

O médico norte-americano Raymond Moody Jr. é o criador da expressão “experiência de quase morte”. Em 1975, ele consagrou a sigla EQM ao lançar seu primeiro livro, Vida depois da vida, no qual traz cem relatos de indivíduos que passaram por morte clínica. A obra tornou-se best-seller internacional, com mais de 13 milhões de exemplares vendidos.
 

DEPOIS DO FENÔMENO, O QUE MUDA?

Dr. Moody — É comum que muitas pessoas que tiveram uma EQM nos contem, quando retornam, que a relação delas com a religião se tornou menos restrita a uma denominação doutrinária específica. Em outras palavras, elas nos dizem que a experiência lhes ensinou que todas as grandes religiões têm uma abordagem interessante do assunto. De forma geral, essas pessoas declaram que se aproximam de descrições mais holísticas. Voltam dessa experiência e afirmam: “Sim, existe uma dimensão espiritual”. Não importa exatamente qual ideologia religiosa elas tenham.
 

SOBRE O SER DE LUZ QUE APARECE NAS EQMs

Dr. Moody — Pessoas de todo o mundo me relatam que, frequentemente, a retrospectiva de sua vida ocorre na companhia de um ser de luz, dotado de total compaixão e amor, que as ajuda durante esse processo, chama a atenção delas para determinados aspectos e as auxilia a entendê-los. Cristãos tendem a enunciar que é Cristo. Judeus afirmam que é Deus ou um
anjo. Estive na Índia, e lá muita gente me disse que esse ser era a luz da compaixão. Às vezes, as pessoas definem esse ser de acordo com seu contexto cultural, mas a descrição dele parece similar em todo o planeta.


RELAÇÃO ENTRE TEMPO E DURAÇÃO DE UMA EQM

Dr. Moody — Talvez não seja correto falar em duração de uma EQM, porque as pessoas revelam que, assim que entram nesse estado, o tempo desaparece. Uma mulher afirmou: “Raymond, você pode dizer que minha experiência durou um segundo ou dez mil anos. Não faz a menor diferença”. Portanto, o tempo não é um fator, exceto quando [as pessoas] narram a experiência, [caso em que] elas precisam de uma referência temporal, porque a linguagem é sequencial. Agora, uma coisa podemos assegurar: quanto mais durar a parada cardíaca de uma pessoa, mais envolvente e complexa se tornará, aparentemente, a EQM. Por exemplo, alguém que teve uma parada cardíaca momentânea conseguirá contar apenas um, dois ou três detalhes, como “Saí do meu corpo e comecei a passar por um túnel”, enquanto os que tiveram uma parada cardíaca mais demorada poderão revelar cinco, seis ou sete pontos comuns. Os que sofrem paradas cardíacas incrivelmente longas (...) nos relatarão, normalmente, histórias mais complexas. Podemos dizer que a duração da EQM é possível de ser medida mais pelo aspecto da complexidade do que pelo do tempo.

EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS E NOVOS MEIOS DE INVESTIGAÇÃO

Dr. Moody — Até este momento, a noção de que existe vida após a morte não é cientificamente válida ou inválida, mas isso não quer dizer que não seja relevante. (...) A questão de como verificar uma experiência transcendental ainda é muito vaga. Você quer saber se eu vejo maneiras de fazer isso no futuro? Sim, vejo. Acho que teremos de expandir nossa lógica. Talvez a objeção mais séria levantada contra a tese da vida após a morte seja a de que [essa tese] é ininteligível. Acredito muito que podemos trabalhar nela daqui em diante, pois o fato de algo ser ininteligível não é mais obstáculo para a investigação racional. É preciso um novo sistema de lógica que nos permita refletir acerca de coisas que até agora não fazem sentido. Nessas condições, encontraremos aspectos de nossa mente que não sabíamos que tínhamos. A mente tem capacidade plena para computar coisas ininteligíveis ou pensar sobre elas de forma racional, coerente e lógica.

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SEM MEDO DA MORTE

Dr. Moody — Pessoas que vivenciaram uma EQM afirmam sempre que não têm [mais] medo da morte. Para aqueles que estão com saudade de seus entes queridos que morreram, elas dizem que nós os veremos novamente. (...) Essas experiências confortam quem está passando pelo luto. Eu já vi isso repetidas vezes, desde a primeira vez que comecei a falar sobre o assunto em público, em 1970. (...) O episódio que chamamos de vida é somente uma pequena parte de algo bem maior. No instante da morte, nossa consciência é, de alguma maneira, transmitida para um estado de realidade maior e mais inclusivo. O objetivo disso parece ser, de algum modo, algo que achamos muito difícil de conceituar no estado em que nos encontramos agora, [algo] que faz parte de um progresso. Ouço pessoas dizerem que o desenvolvimento de nossa alma e de nossa vida continua em outra dimensão da realidade após o evento que chamamos de morte.

EQMs E SUICÍDIO

Dr. Moody — Já foram realizados estudos que indicam que o conhecimento sobre EQMs tende a diminuir a ideação suicida. Sabemos de indivíduos que tiveram EQM como resultado de uma tentativa de suicídio. Eles nos disseram que nunca mais tentarão matar-se, [pois] aprenderam com a experiência que, mesmo quando os tempos são difíceis, a vida tem um propósito. Também nos contaram que perceberam que, caso a tentativa de suicídio tivesse dado certo, precisariam ver a tristeza e a dor que aquela ação causaria nas pessoas queridas as quais deixariam para trás.

* Matéria publicada na revista BOA VONTADE, número 242, edição de dezembro de 2016.