Em defesa da Vida, contra o suicídio

Somente em 2020, os casos de depressão e ansiedade, reconhecidos fatores de risco para a saúde mental, aumentaram mais de 25% em todo o mundo

Da redação

13/09/2022 às 08h34 - terça-feira | Atualizado em 13/09/2022 às 10h20

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Em 10 de dezembro de 1993, Dia Internacional dos Direitos Humanos, o fraterno convite da Legião da Boa Vontade (LBV) levou, conforme noticiou a Folha da Tarde, 150 mil pessoas ao Vale do Anhangabaú, na região central de São Paulo/SP, para o I Encontro Viver é Melhor!, em grande atuação ecumênica da Instituição. Na oportunidade, sob a liderança de José de Paiva Netto, presidente da LBV, a multidão ecoou a urgente mensagem de perseverança, de modo que a triste ideia de suicídio jamais seja considerada por ninguém, mesmo diante dos maiores desafios. Defender a preservação da Vida, como há décadas faz a Entidade, é ação mais do que necessária, a qual é fortalecida com a campanha internacional Setembro Amarelo, que incentiva os cidadãos a se manter bem informados sobre o assunto, a buscar auxílio na rede de apoio e a também prestá-lo solidariamente àqueles que convivem com a ideação suicida. Passados 30 anos daquele memorável marco, a prevenção ao problema continua sendo imperiosa, pois, na verdade, o Brasil vive uma segunda pandemia. 

Dessa vez, na saúde mental, tantas vezes negligenciada. De acordo com o DataSUS, o total de óbitos no país por lesões autoprovocadas dobrou nos últimos 20 anos: foi de sete mil para 14 mil. Isso desconsiderando as ocorrências que não foram notificadas. É mais do que uma morte por hora. Aqui um ponto importante: a Associação Brasileira de Psiquiatria estima
que 96,8% dos casos estão relacionados a transtornos mentais. Para se ter ideia, nossa nação é a que revela a maior prevalência de depressão na América Latina e é também a que possui mais pessoas ansiosas do globo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), prezar pelo bem-estar mental é, de fato, condição preponderante na luta contra o suicídio. Pacientes com estado grave de saúde mental morrem, em média, 10 a 20 anos mais cedo do que a população em geral, principalmente em razão de doenças físicas evitáveis. Muitos transtornos geram intensa dor emocional, forte sentimento de culpa, vazio, angústia e raiva, o que pode levar o indivíduo a acreditar, erroneamente, que tirar a própria vida acabará com o sofrimento. Desigualdades sociais e econômicas, emergências de saúde pública, guerra e crise climática estão entre as ameaças estruturais globais à saúde mental. Além disso, estigma, discriminação e a violação de direitos humanos contra pessoas com esse tipo de problema, infelizmente, ainda são comuns.

Os mais vulneráveis são os que correm maior risco de desenvolver transtornos e os menos propensos a receber serviços adequados. Mais de 70% dos portadores de psicose em todo o mundo não têm acesso aos serviços de saúde mental. Enquanto 70% dos enfermos em países de alta renda são tratados, nos mais pobres esse número cai drasticamente para 12%. Mesmo nas nações mais ricas, apenas um terço dos depressivos recebe cuidados formais.

Reforçando a rede de apoio

O “Plano de Ação Integral de Saúde Mental  2013–2030”, a maior revisão sobre saúde mental desde a virada do século, estabelece diretrizes para que governos, acadêmicos, profissionais de saúde e toda a sociedade civil consigam contribuir efetivamente para melhorar a atenção dada a essa área. O relatório faz várias recomendações de ação, agrupadas em três caminhos para a transformação.

São eles: 1. Aprofundar o valor e o compromisso que damos à saúde mental. Exemplo: aumentar os investimentos nela, buscando políticas e práticas firmadas em evidências e estabelecendo sistemas robustos de informação e monitoramento. 2. Reorganizar os entornos que influenciam a saúde mental, incluindo lares, comunidades, escolas, locais de trabalho e serviços de atendimento. Exemplo: introduzir nas escolas programas de aprendizagem social e emocional enquanto se combate o bullying. 3. Reforçar a atenção à saúde mental mudando lugares, modalidades e pessoas que oferecem e recebem os serviços. Exemplo: incluir o uso de tecnologias digitais para apoiar a autoajuda guiada e não guiada e para fornecer atendimento remoto.

NOVA ESTRATÉGIA DE AÇÃO

Com base nas evidências mais recentes e apresentando exemplos de boas práticas, o “Plano de Ação Integral de Saúde Mental 2013–2030”, divulgado em junho deste ano pela OMS, destaca a relevância de se aprofundar o valor e o compromisso dado à saúde mental, de se remodelar os ambientes que a influenciam e de se fortalecer os sistemas que devem zelar por ela.

De acordo com o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, “todos conhecemos alguém afetado por transtornos mentais. A boa saúde mental traduz-se em boa saúde física; e este novo relatório é um argumento convincente para a mudança. Os vínculos indissolúveis entre saúde mental e saúde pública, direitos humanos e desenvolvimento socioeconômico significam que a transformação de políticas e práticas em saúde mental pode trazer benefícios reais e substantivos para pessoas, comunidades e países em todos os lugares. O investimento em saúde mental é um investimento em uma vida e em um futuro melhores para todos”.

Os 194 Estados-Membros da OMS assinaram o referido plano, comprometendo-se com metas mundiais para melhorar as obrigações nessa importante área. Os progressos parciais alcançados na última década provam que a mudança é possível, mas precisa ocorrer mais rapidamente. Durante muito tempo, o segmento tem sido um dos mais desprezados da saúde pública, recebendo uma ínfima parte da atenção e dos recursos de que necessita. Na perspectiva de Dévora Kestel, diretora do Departamento de Saúde Mental e Uso de Substâncias da OMS, “todo país tem ampla oportunidade de fazer progressos significativos em direção a uma melhor saúde mental para sua população, seja formulando políticas e leis sobre saúde mental mais sólidas, ou introduzindo a saúde mental nos seguros médicos, fomentando e fortalecendo os serviços comunitários da área ou integrando a saúde mental à atenção geral à saúde, escolas e penitenciárias. O relatório inclui muitos exemplos que mostram que mudanças estratégicas podem produzir uma melhora considerável”.

 


Fonte: Informações do site oficial das Nações Unidas no Brasil (brasil.un.org/pt-br).