Deficiência auditiva em foco

Especialista alerta para o fato de que a surdez é condição quase sempre evitável

Alan Lincoln e Gabriele Elisa Barros

04/10/2018 às 18h18 - quinta-feira | Atualizado em 04/10/2018 às 18h51

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Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2050, o número de pessoas que apresentarão perda auditiva poderá chegar a 900 milhões. As causas desse problema são diversas e têm origem congênita, genética ou ambiental — a exemplo da poluição sonora, que prejudica, principalmente, populações das metrópoles.

De acordo com o professor dr. Jair de Carvalho e Castro, mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Ph.D. pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp) em otorrinolaringologia, o alto índice de ruído tem sido o grande vilão contra a qualidade de audição dos seres humanos. “A médio e a longo prazos, o barulho da cidade [nos] afeta; mas, às vezes, a curto prazo também. Por exemplo, aqueles que trabalham em aeroporto, em indústria naval, em indústria de aço, em serralheria, em restaurantes, em bares, em boates, [entre outros] lugares de alto ruí­do, têm uma possibilidade muito grande de ter uma lesão progressiva da audição e de caráter irreversível”, afirmou em entrevista à revista BOA VONTADE, ocorrida no consultório dele, em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro/RJ.

Helen Winkler
Nathália Valério
Dr. Jair de Carvalho e Castro.

Um dos sinais do processo de surdez gradativa é o zumbido nos ouvidos, que pode se assemelhar a chiados, apitos, cliques ou estalos. Pode ser leve, percebido somente no silêncio; ou intenso, a ponto de persistir durante todo o dia. “Geralmente, para muitos pacientes, [ele] incomoda mais do que a própria surdez. Então, ele também tem que ser passado por um processo de investigação. E nós, hoje, com a evolução da otologia — área do otorrino que estuda os problemas de ouvido e em especial a audição —, temos vários mecanismos com possibilidades de tratamento.”

+ Professor dr. Jair de Carvalho e Castro destaca conteúdo da revista BOA VONTADE

Além do zunido impertinente, alguns momentos da rotina podem revelar a redução da capacidade de escutar, tais como: ter a percepção de que as pes­soas falam como se estivessem resmungando; assistir à TV e receber reclamações de que o volume do aparelho está muito alto; não compreender a fala de quem está em outro ambiente próximo; sempre pedir que repitam o que disseram; fazer uso de leitura labial durante uma conversa, entre outras ocasiões. Procurar um otorrinolaringologista é essencial para quem se reconhece em cenas como essas e deseja uma avaliação precisa dos sintomas, assim como orientação para extingui-los ou controlá-los.

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Possíveis soluções

Das opções de tratamento da perda auditiva, a prótese acústica apresenta-se entre as mais comuns, pois serve para diferentes causas e pode ser utilizada em qualquer idade. Ela amplifica os sons do ambiente, favorecendo a escuta. Entretanto, apesar da sua eficácia para inúmeros casos, considerável parte dos pacientes ainda possui receio em usá-la em razão do prejulgamento de quem esteja ao redor. “Existe essa questão de usar o aparelho e haver um estigma com a vaidade. Mas o que eu costumo fazer é mostrar ao paciente o problema que ele tem, a dificuldade que isso agrega e a mudança na qualidade de vida que ele pode ter usando o dispositivo. Além de que os aparelhos são extremamente anatômicos, eles são quase imperceptíveis na maioria das vezes”, ponderou o especialista, que é professor de otorrinolaringologia da UFRJ.

Quando a perda auditiva é muito acentuada e o dispositivo apresenta-se ineficiente, o procedimento indicado é o implante coclear, capaz, até mesmo, de restituir a audição de crianças que nasceram surdas (quando colocado até os 24 meses de vida). Conforme explicou o dr. Jair, além de recém-nascidos que tiveram resultado negativo no teste da orelhinha, essa é uma boa alternativa também para “o adulto que tem uma surdez profunda, que teve uma meningite, uma perda de audição total, um trauma craniano, uma infecção cerebral, [ou] que fez uso de um medicamento ototóxico* (...)”. Por meio de cirurgia, um dispositivo eletrônico é inserido na cóclea (parte anterior do labirinto), o qual substitui as funções das células do ouvido interno, já que estimula a função do nervo auditivo que está prejudicado e recria as sensações sonoras.

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Inclusão social
Contudo, a falta de informação faz com que aqueles que lidam com a surdez demorem a procurar um método de tratamento. Com o agravo do problema, o deficiente auditivo passa a se isolar do convívio social, a fim de evitar os “embaraços” que acontecem na comunicação interpessoal. “(...) Em um ambiente ruidoso, o paciente com deficiência auditiva não consegue interagir, e as pessoas começam a se dirigir pouco a ele. Consequentemente, ele também evita fazer perguntas, porque não vai ouvir direito [a resposta]. Ocorre, então, uma retração social, que é muito ruim para o sistema todo”, explicou.

Considerando tais condições, o dr. Jair sustenta que as pessoas surdas ou com audição imperfeita não precisam e nem devem viver à margem da sociedade. Com o tratamento adequado, é possível, por exemplo, estudar e trabalhar. Daí a importância da reabilitação desses pacientes, para que possam viver em sociedade como qualquer indivíduo, livre de preconceitos. “Esta é a missão da otorrinolaringologia: diagnosticar, tratar, reabilitar essas pessoas, colocá-las na escola,  fazer com que elas tenham aprendizado; e, com esse aprendizado, desenvolver uma atividade de trabalho, uma atividade social, uma vida sem nenhuma barreira. (...) Posso afirmar que, [para] mais de 99% dos pacientes que têm problemas de audição, vamos encontrar algum recurso para curar essa surdez, para melhorá-la, transformá-la de uma surdez profunda para uma surdez moderada”, destacou o especialista.   Ao fim da entrevista, o dr. Jair de Carvalho e Castro, amigo de longa data da Legião da Boa Vontade, fez questão de saudar o dirigente da Instituição: “Um abraço para o meu amigo, presidente [da LBV], Paiva Netto”.

Helen Winkler

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*Este conteúdo consta na revista BOA VONTADE nº 246, de setembro de 2018. Para obter seu exemplar digital, baixe o aplicativo BOA VONTADE Magazine, disponível gratuitamente na Google Play e na App Store.