Em entrevista, Ana Paula Padrão reforça o poder da mulher na sociedade
De jornalista a empresária, Ana Paula dedica-se à igualdade de gênero que contemple o melhor das diferenças e os valores da mulher na família e no trabalho.
08/11/2013 às 18h49 - sexta-feira | Atualizado em 06/06/2015 às 16h00

Pessoa decidida, empenhada em ser feliz e disposta a compartilhar esse sentimento com todos ao seu redor. Com esse mesmo entusiasmo, a jornalista e empresária Ana Paula Padrão valoriza a busca do equilíbrio entre a atividade profissional e a vida familiar e afetiva. Para isso, não hesitou em deixar a TV (onde comandou telejornais nas maiores emissoras do Brasil) para se dedicar unicamente à sua produtora de conteúdo Touareg e ao Tempo de Mulher, um portal que oferece serviços e promove palestras e pesquisas com foco no público feminino.
Com o novo projeto, a ideia é estabelecer uma plataforma especializada que favoreça a mulher no ambiente de trabalho. Isso por meio de “programas e práticas que tornem essa tripla jornada feminina mais fácil, que deem conforto para ela na hora de ter um filho, e não ter que voltar correndo para o trabalho pelo medo de perder aquela função”, explicou. Para Ana Paula, essa é uma forma de pensar em um futuro melhor para o Brasil, com boa educação para as crianças e menos violência e corrupção, pois investe na família, elemento fundamental na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Em setembro, a jornalista esteve nos estúdios da Super Rede Boa Vontade de Comunicação (rádio, TV, internet e publicações) na capital paulista para participar de sessão de fotos e gravação de um vídeo institucional da Campanha Natal Permanente da LBV — Jesus, o Pão Nosso de cada dia!. Todos os anos, a iniciativa mobiliza artistas, personalidades da mídia e o povo brasileiro para uma ajuda especial a quem mais precisa. A meta da campanha é arrecadar 900 toneladas de alimentos não perecíveis para entregar a mais de 50 mil famílias de baixa renda. Durante a visita, Ana Paula conversou com a equipe da BOA VONTADE.
BOA VONTADE — Como é para você participar da campanha do Natal Permanente da LBV?
Ana Paula Padrão — É uma honra estar aqui com vocês. Multiplicar a solidariedade é fazer uma sociedade melhor. A gente é atropelado todos os dias pela nossa rotina, pelos nossos interesses... É claro que precisamos construir e produzir coisas todos os dias para fazer a sociedade andar, o país crescer, mas não é só isso. É realizar isso sem atropelar o outro. Temos que olhar com Boa Vontade quem está ao nosso lado, prestar algum tipo de solidariedade a quem precisa. Não é necessário só fazer doações de alimentos, de roupas; se você doar carinho, todo dia, como sociedade a gente seria melhor, mais nobre, menos egoísta, autocentrada. Isso faz um mundo melhor, mais equilibrado, justo, menos corrompido. O tecido social só fica mais ligado, menos destruído, se você efetivamente ama as pessoas.

BV — Seu atual momento profissional é dedicado ao público feminino. Como essa jornada teve início?
Ana Paula — Eu comecei há muitos anos a fazer pesquisas sobre a mulher brasileira. Primeiro, para satisfazer uma curiosidade minha de jornalista. Eu sabia que o sexo feminino estava passando um momento diferente daquele da mulher dos anos 1980, que saiu de casa para trabalhar e que, muitas vezes, esqueceu o seu lado feminino, a maternidade. Foi a época das produções independentes [ter um filho sem parceiro]. Era como se não fosse importante ter família; ou seja, fazer tudo sozinha e trabalhar como homem, imitando os padrões masculinos, inclusive porque não tínhamos modelo feminino para copiar. A partir do ano 2000, a mulher começou uma tentativa de resgate de valores eminentemente femininos, de prestar atenção nela mesma de novo.
BV — Como tem sido a recepção do público a esse lado empreendedor?
Ana Paula — Sinto que maior do que imaginava. Eu tenho uma ligação muito forte com as mulheres. Nunca escondi do público o que queria fazer e os meus momentos de felicidade e de infelicidade, de mudanças na minha vida, de recuperar determinadas coisas que deixei para trás. (...) Então, como minha relação sempre foi de transparência com o público, tive um retorno muito grande. Isso é bom, porque sem credibilidade não se chega a lugar nenhum nessa área. A comunicação tem sido muito boa com essa mulher da classe média brasileira, a exemplo da comunicação com as mulheres que estão em grandes corporações e podem disseminar nessas empresas um ambiente de trabalho mais favorável para nós... por meio de programas e práticas que tornem essa tripla jornada feminina mais fácil, que deem conforto para ela na hora de ter um filho, e não ter que voltar correndo para o trabalho pelo medo de perder aquela função.
BV — E o papel da comunicação social nesse processo?
Ana Paula — A comunicação é sempre muito importante. Muita gente diz: “Ah, o jornalismo vai acabar... A comunicação já não é a mesma. A notícia está se banalizando”. Eu até entendo, mas discordo. A notícia é um produto tão nobre, tão necessário, que nunca vai acabar. Podem mudar as plataformas, os interlocutores, a maneira de absorvê-la, mas a sociedade vai sempre precisar da notícia. Quanto mais democrática for a notícia, melhor, pois a mais pessoas chegará e mais benefícios levará.
BV — A igualdade de gênero é possível?
Ana Paula — Nós somos diferentes, homens e mulheres. Enquanto tentamos provar que éramos iguais, deu tudo errado. O feminismo foi importante inicialmente porque abriu muitas portas para todas nós. Todo movimento radical tem que quebrar alguns tabus e ser exagerado, senão ele não provoca a mudança necessária. Agora é tempo de fazer outro caminho, tempo de entender as diferenças e utilizá-las da melhor maneira possível. No ambiente de trabalho, por exemplo, os homens são mais focados, mais hierarquizados. Numa empresa em geral, é o que se entende por gestão masculina, aquela na qual um currículo é o que vale uma vaga e pronto. O que se entende por gestão feminina são pessoas e talentos adaptados aonde vão produzir bem. Isso é aproveitar melhor a capacidade de homens e mulheres. Com isso eu estou dizendo que a gente não deva dividir todo o resto? Não! Temos de dividir, sim! É tanto responsabilidade do homem quanto da mulher educar direito uma criança, amar um filho, sustentar uma família. (...) Agora, a gente pode trabalhar essa igualdade de gêneros aproveitando o melhor das diferenças e unindo o melhor dos resultados.

BV — Como a mulher deve lidar com as jornadas duplas ou triplas?
Ana Paula — Quando está sobrecarregada, a última coisa que ela olha é para si mesma. Vamos ser honestas... a gente está feliz? É uma pergunta que me faço todos os dias e tento responder. Toda vez que rompo com alguma coisa que está me fazendo mal, é porque olhei para mim e falei assim: “Não dá! Estou sobrecarregada, não estou feliz!”. Então, toda vez que vejo mulheres reclamando muito: “Não dá tempo para nada! Eu tenho tanta coisa para fazer!”, eu penso que é muita responsabilidade para ela fazer essa mudança, olhar para si e dizer: “Onde está o ponto de infelicidade? Eu dou conta disso tudo ou só estou querendo ter o respeito social porque sou uma mulher que conseguiu fazer tudo?”. Esse negócio de supermulher ficou fora de moda. E veja que eu não estou sugerindo que a mulher pare de trabalhar e volte para casa, não. Mas que ela procure com seu companheiro, com seu chefe e sua empresa as condições mais favoráveis para que trabalhe bem. Esse é um movimento muito forte na Europa e nos Estados Unidos. O Brasil não pode abrir mão da força de trabalho feminina, tampouco deixar de ter crianças bem-educadas, lares estáveis; a sociedade é feita de famílias. Ou o homem começa a dividir as coisas com a mulher, e as empresas dão mais condições para que a gente seja profissional, mulher e mãe, ou a sociedade não vai acontecer, ela vai ficar um tecido esgarçado e não vai chegar a lugar nenhum.
BV — O equilíbrio é a chave para o sucesso na vida profissional e pessoal?
Ana Paula — Tanto a mulher como o homem precisam de paz de espírito, ter tranquilidade, para ser uma pessoa equilibrada emocionalmente. O tempo passa muito rápido, e quando a gente vê, não aproveitou o melhor. O mundo da produtividade do trabalho exige um tempo muito diferente daquele para ver uma criança crescer, e temos de equilibrar essas coisas. Pais querem ser pais, mães querem ser mães, como é que se faz a amarração dessas coisas? Para que todas elas aconteçam em seus ritmos, é necessário um dividir com o outro. Assim, não teremos de ficar 28 horas plugadas por dia, porque diariamente só temos 24 horas e precisamos dormir, descansar, amar e sermos amadas. A vida solitária é mais pobre... uma vida mais difícil.
BV — Que mensagem deseja transmitir aos leitores da BOA VONTADE?
Ana Paula — Eu espero sinceramente que a sociedade evolua para mais equilíbrio. Não dá para passar por essa vida só trabalhando e também não dá para ficar só vendo os outros fazendo isso. Todo mundo quer produzir alguma coisa, quer ver a sua obra ficar. Mas à custa de quê? Em que velocidade? É nisso que precisamos pensar. É muito importante para a mulher hoje fazer parte de uma sociedade produtiva, e isso se dá de várias maneiras. O homem também precisa ver o quanto é importante, legal, e quanto gera de felicidade ter um tempo para os filhos, para a casa. Esse encontro vai acontecer de uma maneira mais fácil se cada um chegar ao meio da questão e parar de ficar um pouco nas pontas. Eu espero que isso ocorra naturalmente e, daqui a uma geração, possamos finalmente falar de outros assuntos.
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Matéria publicada na revista Boa Vontade, edição 235.
Reportagem: Angélica Beck e Leila Marco