José Carlos Araújo escreve: "Chuteira preta"
Colunista da Boa Vontade faz uma análise sobre o atual momento do futebol brasileiro.
José Carlos Araújo
31/03/2016 às 10h49 - quinta-feira | Atualizado em 22/09/2016 às 16h05

Vivemos tempos conturbados na política. Claro, o futebol, como reflexo da sociedade, também sofre as consequências desse momento critico e delicado, que preocupa não apenas o país, mas todo o resto do mundo.
E, nessa situação, podemos constatar uma coincidência entre a política e o futebol: em ambos, constatamos falta de compromisso, ausência de patriotismo, má gestão, despreparo profissional e acusações de favorecimento e desvios de verba.
O outrora poderoso futebol brasileiro está sem rumo. Passado exatamente 1/3 das eliminatórias para a Copa do Mundo na Rússia, em 2018, estamos na sexta colocação. Ou seja, neste momento, estamos fora da zona de classificação e até da repescagem.
Muitos já antecipavam que essa seletiva seria a mais difícil da história. E não estavam errados. Temos o então líder Uruguai renascido; a Argentina, vice-campeã mundial; o melhor Chile de todos os tempos, campeão sul-americano; o bom time colombiano; a garra paraguaia e o surpreendente Equador.
Vale destacar coisas que são vistas a cada vez que essas seleções entram em campo. O que esses times têm em comum? Entrosamento, filosofia de jogo e muito amor à camisa.
Quanto à Amarelinha, apesar de estarmos em entressafra, temos bons jogadores. A maioria é titular em grandes times da Europa. Entretanto, faltam comando, disciplina tática, liderança dentro de campo, confiança, respeito à cultura brasileira da bola e vontade de servir à camisa mais vitoriosa do futebol mundial.
Há muito tempo o futebol brasileiro passa por mudanças: alijaram os pontas, os camisas dez e, agora, o típico camisa nove, que fazia a alegria do povo.
A propósito, a alegria do torcedor também foi alijada do espetáculo em prol das novas arenas, sem personalidade, superfaturadas e caríssimas. Em busca de números e negociações, deixaram de lado a essência, a alegria do futebol bem jogado, bem como o seu criativo público. Tudo segue uma cartilha. O drible ofende. O gol não é pra ser comemorado.
Que saudade dos craques, dos apelidos dos jogadores, dos campinhos de rua, da chuteira preta, do drible, do improviso e da irreverência do genuíno torcedor não adestrado.
O atual colorido das chuteiras e os penteados exóticos deveriam ser proporcionais ao riso, à emoção de uma jogada bem feita. O patriotismo também deve estar no bico das chuteiras, com a consciência da nossa história no futebol mundial.