Antirracismo, uma postura necessária

De acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva, 84% dos brasileiros percebem o racismo em nossa sociedade, mas apenas 4% se consideram racistas

Wellington Carvalho de Souza

05/05/2022 às 08h58 - quinta-feira | Atualizado em 09/05/2022 às 09h49

Shristina Wocintechcha/Unsplash

A humanidade tem avançado em feitos extraordinários ao longo das eras. Vários são os exemplos disso, como o marcante evento do dia 20 de julho de 1969, quando o astronauta norte-americano Neil Armstrong (1930-2012) pisou na Lua. No entanto, apesar de o ser humano conseguir viajar ao Espaço, ainda há importantes e necessárias conquistas a serem priorizadas aqui no planeta Terra — sem intolerâncias de qualquer tipo. Uma delas é erradicar o racismo, tipo de preconceito lamentavelmente ainda comum em várias nações. No Brasil, não são raras as vezes em que a agressão a negros, seja física, verbal ou psicológica, chama a atenção nos noticiários. Os casos vão desde ofensas explícitas em locais públicos a manifestações naturalizadas, como ocorre quando uma pessoa preta é preterida em uma seleção de emprego simplesmente pela cor de sua pele, mesmo sendo a mais qualificada para a vaga em questão.

João Periotto
Iracy Guerra

Iracy Guerra, coordenadora de produção de conteúdo, que integra a equipe de profissionais da Legião da Boa Vontade em São Paulo/SP, está entre aqueles que foram marcados por esse racismo estrutural, sustentado pela construção social do nosso país e que vem favorecendo brancos em detrimento de negros e indígenas. A comunicadora, que cresceu na comunidade do Vidigal, no Rio de Janeiro/RJ, relembrou momentos tristes que vivenciou desde a infância. “A gente chega à escola achando que todos os colegas terão o mesmo tratamento. Enquanto crianças, não sabemos que há alguma diferenciação até sermos apresentados à paleta de lápis de cor: quando vemos que o tom ‘cor de pele’ é salmão, nos perguntamos: ‘Ué... Qual é a minha cor?’ Aquele sentimento de invisibilidade já começa na infância, num lugar onde deveria haver construção, interação social, desenvolvimento. A criança negra se sente invisível”, explicou. “Quando participava das rodas de conversa no colégio, estava sempre muito acuada. Falavam meu nome, e eu me escondia [lágrimas]. Era assim que eu me via na escola. Quando os colegas brancos falavam, os professores e demais interagiam felizes, sorrindo; quando um negro começava a falar, já olhavam com ‘rabo de olho’ e diziam: ‘Já vem arranjar confusão’.

Essa é uma herança muito cruel, de uma época em que achavam que os brancos eram intelectualmente superiores aos negros”, contou emocionada. Essas recordações foram expostas por Iracy durante o encontro “Como se combate o racismo no ambiente profissional?”, promovido em formato on-line pela LBV, no dia 24 de março, para seus colaboradores de todo o Brasil. Essa foi apenas mais uma de inúmeras ações realizadas pela Instituição com o propósito de fortalecer a consciência antirracista, incentivada também nas atividades de suas escolas e Centros Comunitários de Assistência Social, com aulas, oficinas e palestras que colocam o assunto sempre em pauta entre os atendidos.

A propósito, a Legião da Boa Vontade é pioneira nessa causa, entre tantas em prol da dignidade humana. Já na década de 1980, o jornalista e escritor Paiva Netto, presidente da Entidade, tratava do tema no rádio, na TV e em textos publicados na imprensa, como o aplaudido artigo Racismo é obscenidade”, veiculado antes que a Abolição da Escravatura, ocorrida em 13 de maio de 1888, completasse seu centenário.

Na África do Sul, o regime segregacionista Apartheid também era realidade, vale salientar.

DERRUBANDO AS ESTRUTURAS DO RACISMO

O encontro foi comandado pela biblioteconomista e cientista da informação Letycia Elizabeth e pelo sociólogo Daniel Guimarães, ambos apresentadores da Boa Vontade TV. Em suas considerações, ela relatou a experiência de se sentir motivada como ex-aluna da LBV a vencer possíveis dificuldades no ingresso ao Ensino Superior. Não somente ela se formou na universidade, como também a própria mãe, Maria Solange da Graça, formada em Contabilidade aos 60 anos — fato pelo qual se alegram, já que reconhecem a escassez do protagonismo preto.

“Pessoas negras que não ocupam alguns espaços não deixam de estar porque são incompetentes ou não têm vontade própria. (...) Olhar para esse cenário que vivemos hoje no nosso país e achar que é só uma questão de vontade é algo muito injusto, porque a gente, infelizmente, vive uma realidade em que portas nem são abertas quando se há características específicas de etnia”, evidenciou.

Interagindo com centenas de pessoas presentes durante a transmissão, Letycia realçou quanto “precisamos entender que a diversidade não é algo que nos enfraquece. Ela é algo que nos fortalece. A gente perde quando não tem uma equipe diversa [no trabalho], perde do ponto de vista econômico, administrativo e, acima de tudo, espiritual”. Por sua vez, Daniel destacou que o fomento da consciência antirracista é algo a ser cultivado também por quem não sofre o preconceito étnico, a começar por aparentes “mínimas” mudanças, como excluir expressões negativas do vocabulário (veja algumas no boxe). “Não devemos deixar esse debate ser tratado como uma responsabilidade única e exclusiva das pessoas negras. Todos nós temos que nos atualizar constantemente. Buscar estar a par dessas discussões e não fazer comentários desatualizados. Assim, a gente fará a nossa parte, porque a luta contra o racismo é de todos nós”, declarou.

Ele prosseguiu: “(...) Se eu não vivencio a experiência do preconceito étnico, tenho que compreender que não posso falar como se conhecesse a dor que uma pessoa negra ou indígena sente. Entretanto, isso não me exime. É minha responsabilidade me inteirar sobre esse assunto, não fazer comentários e não ter atitudes que sejam ofensivas. Isso é um exercício de autocrítica, de aprendizado constante, de olhar para a nossa própria história, reconhecer que erramos muitas vezes, mas que temos esse compromisso permanente com a nossa própria melhoria. (...) Os atos que fortalecem o racismo ocorrem de forma sutil para quem o comete, mas, para quem sofre, essa violência é sentida de forma dolorosa e provoca muito sofrimento”.

CONGRAÇADOS PELO AMOR

De acordo com o sociólogo Daniel, “a gente precisa sempre olhar de forma generosa, solidária [para o ser humano], problematizando [as questões sociais que o cercam] e agindo de maneira crítica. (...) O olhar ecumênico, solidário, é um olhar antirracista”. Iracy compartilha da mesma perspectiva: “O respeito ao outro tem que ser algo natural. Nós nascemos para amar. Precisamos amar, assim como Jesus, o Cristo Ecumênico, o Divino Estadista, ensinou”. Ela ainda fez questão de registrar: “Fico muito feliz por a Legião da Boa Vontade criar esse espaço para falar de dores tão profundas que guardamos por tanto tempo. Sonhamos muito em não precisar falar mais desse assunto, em viver numa sociedade em que os negros sejam respeitados, não discriminados ou julgados pela sua cor. (...) Fico muito feliz por fazer parte da LBV e ter voz aqui”.