Mundo do trabalho no pós-pandemia

Em entrevista exclusiva, especialista aponta as próximas tendências no âmbito profissional

Wellington Carvalho de Souza

02/12/2020 às 14h21 - quarta-feira | Atualizado em 02/12/2020 às 18h50

Nappystock

Em decorrência da atual pandemia do novo coronavírus, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins, até o momento, mais de 63 milhões de pessoas contraíram a Covid-19 e mais de 1,4 milhão, infelizmente, foram a óbito. Além do prejuízo à saúde de populações inteiras, a crise sanitária que a humanidade vem atravessando nos últimos meses colocou o planeta de “cabeça para baixo”, interferindo na visão de mundo dos povos, na forma como trocam afeto, desfrutam de suas respectivas culturas e crenças e seus valores. As mudanças são tantas que levaram a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz a declarar, em entrevista à CNN Brasil no mês de julho, que “a pandemia vai alterar os nossos livros de história. Inclusive, ela vai mudar a datação de quando começa o século 21. Na minha opinião, o século 21 começa nesta pandemia”.

+ CONFIRA A EDIÇÃO N° 253 DA REVISTA BOA VONTADE NA PLATAFORMA ISSUU

Diego Freitas Furtado

O impacto de um acontecimento tão forte como essa crise sanitária deixa marcas profundas em várias áreas da vida, entre elas no campo do trabalho. A pandemia pegou todos de surpresa e tem interferido na rotina de bilhões de pessoas, forçando-as a cumprir o necessário distanciamento social da maneira como podem. Profissionais que estão em serviços essenciais, como saúde, segurança, transporte e energia elétrica, tiveram de prosseguir na linha de frente, expostos a maior risco de contaminação. O home office foi a saída para tantos outros se protegerem, principalmente entre os que conseguem se valer da internet para trabalhar. As empresas e as organizações reorganizaram-se rapidamente para adaptar os processos de trabalho e rever projetos e até mesmo planejamentos de longo prazo. Em parte delas, férias foram adiantadas, contratos foram suspensos, e o tão temível corte de funcionários ocorreu. Tanto é que, no Brasil, no último trimestre de 2020, o total de desempregados passou a ser 14,1 milhões (1,3% a mais do que nos três meses anteriores). Esse é o pior resultado na série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua).

Para falar sobre os possíveis desdobramentos da pandemia no âmbito profissional, a equipe da revista BOA VONTADE conversou com a professora Naira Libermann, coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Empreendedorismo e Inovação (Idear), da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Doutora em Ciências da Educação pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Utad), em Portugal, e mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi também diretora-executiva do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no referido Estado. Em sua entrevista, a especialista previu algumas tendências para os próximos anos, a exemplo da valorização da autonomia, do empreendedorismo, da capacidade de adaptação e da utilização cada vez maior de recursos tecnológicos.

BOA VONTADE — Quais foram as principais mudanças que a pandemia provocou no mundo do trabalho?
Naira Libermann
— Dentre as principais, podemos destacar a aceleração do trabalho remoto e/ou home office integrado com gestão 4.0, ou seja, autonomia dos times na organização do seu trabalho. Esse processo já ocorria de maneira gradual e experimental, mas, recentemente, empresas adotaram isso como uma política oficial. Outra mudança foi a alteração da curva de aprendizagem dos indivíduos e das organizações: muitas inovações que iríamos ver daqui a cinco ou dez anos estão sendo antecipadas em razão das tecnologias digitais. 

Um dos maiores efeitos da pandemia foi realçar a total falta de voz e influência que a maioria das pessoas tem em seus locais de trabalho. Ainda existe fortemente o conceito de comando, de controle na gestão dos funcionários. Os líderes devem aproveitar a oportunidade para dar aos colaboradores maior autonomia, acompanhada de responsabilidade.

+ CONFIRA A EDIÇÃO N° 253 DA REVISTA BOA VONTADE NA PLATAFORMA ISSUU

BV — É possível apontar quais profissões essa crise na saúde mundial revelou estarem em declínio e as que passaram ou estão em ascensão?
Naira Libermann — A pandemia só evidenciou o declínio de profissões que já estavam nesse processo em razão da automação. Por exemplo, as empresas precisam de pessoas em atividades-chave, como entregadores em vez de balconistas e vendedores, porque estão vendendo via internet. Eu diria que alguns profissionais precisaram se reinventar durante a crise, como os de limpeza, motoristas de aplicativos, telefonistas, recepcionistas, chefes de cozinha etc. Muitas novas profissões irão surgir, sendo que as que irão ascender são aquelas ligadas à saúde física e mental, às ciências ambientais, à sustentabilidade, à inteligência tecnológica (Big Data, Inteligência Artificial, Tecnologia Digital etc.) e à educação on-line. É importante falarmos em “trabalhabilidade” e não em “empregabilidade”, isto é, quanto você está apto para conseguir trabalho. Dentro desse contexto, o serviço autônomo irá crescer muito, assim como o empreendedorismo social.

 

BV — A retomada do mercado ainda é incerta para o ano que vem, quais serão as principais exigências das empresas para quem busca nova colocação?
Naira Libermann — Elas irão variar de acordo com a posição que o candidato busca. Em geral, as empresas buscarão pessoas capazes de trabalhar em equipe, flexíveis, familiarizadas com tecnologia, com qualificação técnica e que saibam lidar com problemas complexos.

 

BV — Sendo otimistas quanto a 2021, como imagina o retorno às atividades? Os processos de trabalho serão muito diferentes dos atuais?
Naira Libermann — Não imagino que será muito diferente de hoje, porque iremos manter em parte o que estamos fazendo: continuar o trabalho [em formato] remoto. Na minha percepção, a volta será gradual. Nesse novo cenário, os espaços nas empresas serão “ressignificados” em razão do distanciamento social e da higienização. O modelo será híbrido: parte dos funcionários irá trabalhar em casa, e a outra parte, na empresa — o que pode afetar as relações interpessoais. Nesse sentido, precisamos ficar atentos e, como líderes, desenvolver estratégias que promovam interações entre as pessoas, a fim de evitar solidão, isolamento, depressão, entre outras consequências que o home office pode acarretar. Um bom exemplo: determinada empresa disponibilizou uma psicóloga em atendimento on-line para os funcionários e criou grupos de conversas para bate-papo virtual.

 

BV — Como se destacar no mundo do trabalho após a pandemia? Há habilidades ou qualificações preferidas?
Naira Libermann — As pessoas que conseguiram responder mais rapidamente à crise e se adaptaram melhor são aquelas que transformam um problema em oportunidade. O que eu quero dizer é que “muitos choram, outros vendem lenços”. Precisamos de quem consegue fazer acontecer com “o pássaro na mão”. Dentre as qualificações, as que se destacam são: trabalhar com problemas complexos e tecnologias digitais, conhecer o outro, nutrir empatia, ter capacidade de inovar, de desaprender e aprender. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, em apenas cinco anos, 35% das habilidades hoje consideradas essenciais mudarão. Nosso maior desafio é desenvolvermos as competências necessárias para esses novos rumos, aliando conhecimento e comportamento. E isso se faz pela Educação.

 

BV — A partir do próximo ano, o que podemos esperar do relacionamento entre as empresas e seus colaboradores? 
Naira Libermann
— Será um ano de colaboração. As empresas e as pessoas vivem um momento de solidariedade e de identidade com causas sociais. Os indivíduos estarão se compreendendo e se expressando na sociedade. Haverá cada vez mais conexões sociais [de modo] on-line. Conforme previsto pela Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial chegará a 8,5 bilhões até 2030; logo, as empresas precisarão maximizar os espaços, bem como melhorar maneiras de compartilhar recursos limitados. Haverá necessidade de conduzir políticas, sociedades e pessoas para colaborar através das fronteiras nacionais. Nesse contexto, o acesso e a cultura tecnológica são vitais.