Os desafios do Brasil de hoje

Organizações da sociedade civil reinventam-se para vencer a crise

Airton Grazzioli

03/05/2018 às 10h15 - quinta-feira | Atualizado em 03/05/2018 às 17h39

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Vivian R. Ferreira
AIRTON GRAZZIOLI, bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Direitos Difusos e Coletivos pela Escola Superior do Ministério Público do Estado de São Paulo (ESMP-SP), é mestre em Direito Civil pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), membro do Ministério Público do Estado de São Paulo, promotor de Justiça e curador de fundações de São Paulo.

É inegável que o país vivencia, há diversos anos, aguda crise. Esta não é somente econômica e financeira, mas também moral e ética, relacionada à falta de credibilidade de nossas autoridades, à deterioração dos valores sociais e a outros fatores. Essas circunstâncias influenciam negativamente os brasileiros, levando-os a um estado de perplexidade e de inação e deixando-os sem forças adequadas para reagir aos desafios e obstáculos com os quais lidamos no dia a dia.

Agrava esse quadro o fato de que, quando há escassez de recursos econômicos (públicos e privados), as pessoas em situação de vulnerabilidade social precisam de maior ajuda — isso em todos os sentidos. Enquanto esses cidadãos necessitam de mais apoio, as organizações da sociedade civil (OSCs) também carecem de meios financeiros para ajudar a melhorar a qualidade de vida de tais indivíduos.

Por outra perspectiva, o povo brasileiro é realmente forte. Com as próprias peculiaridades, sabe enfrentar os problemas e surpreender positivamente. Isso não é diferente com as organizações da sociedade civil do país, as quais são reflexo do destemor de sua gente. O Terceiro Setor, em especial nas duas últimas décadas, deu sinais claros de sabedoria, pois conseguiu evoluir com propriedade. Tornou os maus momentos em períodos férteis para renascer e crescer. Isso ocorreu, por exemplo, quando tentaram impingir-lhe, por força de duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) das ONGs, a ideia de que toda a malha social organizada representava um mal. As mesmas CPIs deveriam limitar-se a apurar as irregularidades cometidas por poucas organizações. Em vez disso, tentaram desacreditar todo o Terceiro Setor, como se todas as organizações que o integram ou a maioria delas se dedicassem a práticas ilegais e contrárias aos valores da moral. Na verdade, as organizações sem fins lucrativos e com finalidades sociais prestavam, prestam e certamente continuarão prestando relevantes serviços de interesse público em benefício daqueles que têm de utilizá-los.

"O Terceiro Setor tem reagido de modo valente diante dos grandes obstáculos. porém, nada será efetivo se não houver criatividade."

Além disso, as reações cotidianas do Terceiro Setor são impressionantes. Se, há alguns anos, ele não tinha importância social — em razão da atuação tímida e de curto alcance —, hoje apresenta uma realidade totalmente distinta: é composto de cerca de 400 mil organizações, que agem em todo o território nacional. Apesar dos percalços, continua crescendo em progressão geométrica, tanto na abrangência de suas ações quanto na qualidade destas.

TRANSPARÊNCIA
Faz parte da consciência coletiva das organizações a necessidade de profissionalização e de qualificação dos serviços ofertados, de modo que elas se transformem de instituições com “telhados de vidro” em organizações com “paredes de vidro”, ou seja, absolutamente transparentes, não só para os órgãos públicos de controle, mas também para os usuários de seus serviços e para a população em geral.

CRIATIVIDADE E COMUNICAÇÃO CONSTANTES
O Terceiro Setor tem reagido de modo valente diante dos grandes obstáculos. Porém, nada será efetivo se não houver criatividade. Gestões bem capacitadas e transparentes, economia de recursos humanos e materiais e adoção de ferramentas de controle e de compliance (para estar em conformidade com leis e regulamentos externos e internos), no contexto da mais absoluta transparência, não têm sido, em regra, suficientes para aumentar o volume de recursos destinados ao custeio das atividades das instituições. Principalmente no que se refere à captação de recursos privados, o cenário atual tem exigido maior criatividade das organizações. Aquelas que forem aptas e exitosas nessa linha e exercerem a inovação terão maior probabilidade de sucesso — sobretudo para superar a presente crise em condições mais favoráveis.

Muitas delas buscam recursos privados de pessoas jurídicas ou físicas sem a preocupação de dar um retorno ao doador acerca da relevância da contribuição dele. Organizações com esse comportamento, por certo, não prenunciam um futuro promissor. É preciso que a comunicação entre as instituições e seus mantenedores seja efetiva, clara, direta, constante e na tônica de parceria. O colaborador deve sentir-se elemento participante do projeto social e no mesmo patamar de importância dos dirigentes da organização para a qual contribui. O desejo do doador de continuar ajudando deve ser preservado, a fim de que este enxergue o projeto como seu também. Igualmente, o colaborador precisa ser ouvido, de forma sincera e atenta, sobre ideias para o aprimoramento do trabalho social e até mesmo do processo de gestão. Assim, terá a convicção de que a organização não faria tudo o que faz sem sua doação.

Como realizar tudo isso para sensibilizar, especialmente, o doador particular? De várias maneiras. No entanto, quem o fizer com criatividade singular com certeza obterá maior sucesso em sua empreitada. É necessário que as organizações se desafiem nesse aspecto, e, quando a crise passar — o que é mera questão de tempo —, sem dúvida estarão num estágio mais evoluído. Criatividade, pois, é a palavra do momento também no segmento social.