É hora de avançar!

Para a presidente da Assembleia Geral da ONU, o mundo vive um momento novo que pode acelerar ações para a garantia da igualdade de gênero

Da redação

04/03/2019 às 15h37 - segunda-feira | Atualizado em 11/03/2019 às 11h33

UN Photo/Ariana Lindquist

María Fernanda Espinosa, primeira mulher latino-americana presidente da Assembleia Geral da ONU.

A presidente da 73ª Assembleia Geral das Nações Unidas, a chanceler equatoriana María Fernanda Espinosa, não esconde o orgulho de ser a quarta mulher a assumir o cargo e a primeira da América Latina e Caribe. Geógrafa, poeta e política, ela sabe da responsabilidade de estar à frente do principal órgão deliberativo da Organização das Nações Unidas (ONU) e, por isso, destaca que seu desejo é fazer deste ano de trabalho, que se finda em setembro de 2019, um período muito dinâmico e produtivo.

Segundo María, um dos objetivos de sua gestão é aproximar cada vez mais a ONU dos povos.

Em entrevista exclusiva à reportagem da revista BOA VONTADE Mulher 2019, a partir de Nova York, nos Estados Unidos, Espinosa ressaltou a necessidade de fortalecer o multilateralismo no organismo internacional como forma mais eficaz de resolver os problemas globais, bem como a relevância de assegurar a igualdade de gênero e o empoderamento feminino.

A seguir, alguns trechos desse importante conteúdo.

UN Photo/Manuel Elias

Na sede da ONU em Nova York, nos EUA, a chanceler equatoriana María Fernanda Espinosa faz juramento de posse do cargo de presidente da 73ª sessão da Assembleia Geral do organismo internacional, em 18 de setembro de 2018.

BOA VONTADE — A senhora é a primeira mulher latino-americana a ocupar a presidência da Assembleia Geral. Qual o significado dessa conquista na sua trajetória?

María Espinosa — Tem sido um momento ímpar na minha carreira, na minha vida pública. Dediquei a minha eleição às meninas e às mulheres, especialmente às que estão na política. Acredito que a participação feminina no processo de decisão, nos parlamentos locais e centrais, à mesa de negociações, é fundamental para o desenvolvimento, a paz e a segurança e os direitos humanos, que são os três pilares da Carta da ONU. As mulheres têm uma contribuição a dar e precisam ser ouvidas. Já está comprovado que, quando existe o envolvimento delas em processos decisórios, a chance de sucesso é maior. (...) Por isso, partilhei essa vitória com outras mulheres, porque entendo ser uma conquista delas também. Somos a metade da população global, não podemos ser ignoradas.

UN Photo/Manuel Elias

Nova York, Estados Unidos — O eslovaco Miroslav Lajčák, presidente da 72ª Assembleia Geral, entrega o martelo das reuniões plenárias a María, após ela realizar o juramento de posse do cargo de presidente da 73ª sessão da Assembleia Geral.

BV — A luta pelo empoderamento feminino envolve também a Agenda 2030?

María Espinosa — A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável não terá sucesso sem a contribuição feminina. Assim que tomei posse, convoquei embaixadores e embaixadoras de todas as regiões do mundo para me ajudarem a implementar o programa de trabalho da 73a Assembleia Geral — que foi firmado em sete prioridades — e o fiz muito consciente da importância da equidade de gênero e do equilíbrio geográfico nesse processo. Na minha própria equipe, 60% [dos integrantes são] mulheres. Essa diversidade conta muito.

“A promoção dos direitos femininos tem de ser vista como promoção dos direitos humanos em sua integralidade.” 

BV — Quais serão os temas prioritários em seu mandato?

María Espinosa — Quando lancei a minha candidatura, iniciei um trabalho extenso de consultas, de conversas com os estados membros para saber como poderíamos fazer uma presidência mais inclusiva, que realmente atendesse aos anseios dos povos que estão representados nas Nações Unidas. A partir desse feedback, comecei a montar o programa com a ajuda dos representantes permanentes e de outras pessoas que consultei.  Eu sempre idealizei uma Assembleia Geral que aproximasse a ONU das pessoas e as pessoas da Organização. Sou poeta e linguista. Para mim, as palavras têm um valor especial, possuem um significado real, e a minha proposta é alinhar a retórica à realidade. Cada ação deve ter uma razão de existir e fazer a diferença para os que precisam dos resultados produzidos pelas Nações Unidas. Daí tivemos a ideia do tema do encontro: “Tornar as Nações Unidas relevantes para todas as pessoas: liderança global e responsabilidades compartilhadas por sociedades pacíficas, equitativas e sustentáveis”. Com base nessa ampla consulta com a comunidade diplomática, estabelecemos as sete prioridades. E por que sete? Porque são sete dias na semana. É uma [prioridade] para cada dia, simbolizando o nosso trabalho diário. Elas são: igualdade de gênero; migração e refugiados; trabalho decente; ação ambiental; pessoas com deficiência; juventude, paz e segurança; e revitalização da ONU.

UN Photo/Eskinder Debebe

Nova York, Estados Unidos — Espinosa recebe os cumprimentos de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas.

BV — Que ações estão planejadas tendo em vista essas prioridades?

María Espinosa — Vários eventos relacionados a essas prioridades serão promovidos ao longo do ano. Em 12 de março, por exemplo, estou convocando as 20 chefes de Estado e de governo que existem no mundo para um evento de Alto Nível, [a Comissão sobre a Situação das Mulheres (CSW, na sigla em inglês), que ocorrerá em Nova York,] no qual discutiremos um programa de ação concreto para dar maior autonomia às mulheres e impulsionar a igualdade de gênero. Em 27 de abril, teremos um grande concerto para o lançamento da campanha global contra a poluição plástica e, em 10 de abril, em Nova York, celebraremos os 100 anos da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a fim de promover a questão do trabalho decente, tão crucial para a Agenda 2030, bem como para debater, com o setor privado, a academia e a sociedade civil, o emprego do futuro. Discutiremos como a Assembleia Geral e os seus estados membros podem ajudar a alcançar a meta de criação de 600 milhões de novos postos de trabalho até 2030. Nesse ponto, também [falaremos sobre] nossa outra prioridade: os jovens, que têm um papel fundamental, pois grande parte desses empregos são para a juventude.

Divulgação

Em 2013, María Fernanda Espinosa, como ministra da Defesa do Equador, implantou inovadora política de gênero nas Forças Armadas do seu país, que visa prevenir qualquer tipo de discriminação e fortalecer a igualdade de oportunidades para homens e mulheres na carreira militar.

BV — Como a diplomacia pode colaborar para o empoderamento feminino?

María Espinosa — Estamos tentando construir uma forte aliança para [impulsionar] a igualdade de gênero, que, esperamos, perdure mesmo depois da minha saída [do cargo]. Aqui, na ONU, temos o grupo Campeões do Gênero, que é liderado pelo embaixador da Suíça Jürg Lauber, o qual visa promover maior participação feminina nos processos de decisão e dar maior poder às mulheres. A resposta dos embaixadores homens tem sido muito positiva. No evento que fizemos em janeiro com especialistas de gênero — nesse, sim, com um grupo só de mulheres que se destacam em suas áreas  de todos os continentes —, percebemos um grande interesse dos embaixadores aqui em Nova York. Este momento é novo. O mundo começa a descobrir que não existe mais retorno à questão da igualdade de gênero. É hora de avançar e colher os frutos da inclusão das mulheres, que representam a metade da população global. Fui embaixadora junto à ONU aqui em Nova York e em Genebra há 10 anos e posso garantir que existe agora maior apoio e entusiasmo [em relação ao tema]. O próprio secretário-geral, António Guterres, tem sido um campeão no que se refere à igualdade de gênero. Em menos de um ano, ele conseguiu alcançar a paridade entre gêneros nos cargos de liderança em seu gabinete, um fato inédito na história da ONU. Estamos no caminho certo, mas ainda há uma longa estrada a ser percorrida, especialmente na questão do abismo salarial entre homens e mulheres que desempenham a mesma função. E isso não é uma característica desta ou daquela região do mundo. É um desafio de todos os países. Além disso, temos o sério problema da violência contra mulheres e meninas, que atravessa fronteiras e classes sociais.

BV — A LBV promove, em suas escolas, uma educação que une “cérebro e coração”, para que a aprendizagem não ocorra somente no âmbito racional, mas também fortaleça os sentimentos e as emoções dos alunos, incentivando-os à vivência da Cidadania Global. A senhora acredita que, com um ensino voltado para a Cultura de Paz, é possível acabar com a violência de gênero?

María Espinosa — Esse trabalho [da LBV] é louvável. É realmente o cerne da questão. A mudança de corações e mentes, a educação que une Alma e cérebro é um exemplo de que podemos formar uma geração com menos preconceito e mais solidariedade e respeito pelas diferenças e de que podemos promover a cidadania e [fomentar] o entendimento de que o respeito pelos direitos humanos, por uma Cultura de Paz e de amizade entre os povos, propicia uma diferença positiva para sociedades e países inteiros.

UN Photo/Ariana Lindquist

BV — Como tornar os conteúdos e as práticas educacionais mais sensíveis às questões de gênero?

María Espinosa — Eu defendo um amplo debate inclusivo sobre esse tema onde ele se fizer necessário. A promoção dos direitos femininos tem de ser vista como promoção dos direitos humanos em sua integralidade. Hoje, uma mulher que participa na política, na maioria das vezes, sofre preconceito, é tratada de forma diferente, é cobrada de maneira diferente somente por ser mulher. O que ela veste, como fala, o vocabulário usado, o penteado, tudo é motivo de escrutínio. Eu mesma enfrentei e enfrento preconceito pela escolha que fiz de me tornar política. Sou geógrafa e saí da academia para a política, não tenho recalques em dizer isso. Sou política convicta da minha escolha. No meu país, fui ministra das Relações Exteriores duas vezes e também ministra da Defesa, uma área praticamente dominada por homens e na qual as mulheres ainda precisam avançar mais. Em pouco tempo, ajudei a reformular a arquitetura da nossa política de defesa equatoriana. Não foi fácil, mas obtivemos, minha equipe e eu, êxito no final. Claro, tudo isso inclui um grande sacrifício pelo simples fato de sermos do sexo feminino, mas é primordial que cada vez mais mulheres estejam dispostas a dar um passo além. Muitas de nós acabam não suportando a pressão, mas sou otimista por natureza e creio que é preciso continuar insistindo, com coragem e determinação. Se conseguirmos fazer com que a igualdade de gênero seja um tema de todos, ficará mais fácil torná-la realidade.