Por que crianças não devem ter smartphones antes dos 12 anos

Karine Salles

13/02/2017 às 08h01 - segunda-feira | Atualizado em 13/02/2017 às 08h54

Por diversas vezes já mostramos aqui no Portal Boa Vontade os perigos ocultos na internet e nos dispositivos ligados a ela. Isso porque quem fica muito tempo com a cabeça inclinada para ler pode ter graves problemas de coluna. Além disso, as pessoas estão trocando a vida real pela virtual, quando preferem ficar 'trancafiados' num quarto ‘navegando’ do que ter momentos de lazer com amigos. Aparentemente, esse é um comportamento típico de quem já está viciado em internet. Claro que não podemos apenas criticar e nem é a nossa intenção com essa matéria, mas mostrar que existe vida fora da tela de 8 polegadas.

O fato é que a cada dia mais e mais pessoas têm compulsão por usar a internet e os dispositivos ligados a ela, principalmente as crianças. Tanto é que foi-se o tempo em que para distrair o filho o pai oferecia um doce ou a levava para sair. Hoje em dia é muito comum dar logo o celular ou tablet para eles ficarem quietos durante uma reunião familiar ou um jantar fora, por exemplo.

E mesmo sabendo desses e outros fatos você ainda deixa os seus filhos por horas e horas jogando no smartphone? Saiba que um estudo divulgado pela Academia Americana de Pediatria e pela Sociedade Canadense de Pediatria mostra que há diversos problemas causados pelo uso excessivo de eletrônicos por crianças de até 12 anos de idade.

Segundo o estudo, as crianças com idades de 8 a 10 anos gastam quase 8 horas por dia ‘reféns’ de uma variedade de meios de comunicação, que podem ser tanto a televisão, computador e os móveis. Enquanto as mais velhas passam cerca de 11 horas. Essa medida é vista por muitos especialistas como prejudicial às crianças, já que ficando muito conectadas, elas podem perder a habilidade de se relacionar com os outros e estarem mais propensas à obesidade.

Jogos, músicas, filmes, blogs e redes sociais são as páginas mais visitadas por esse público. Elas são tão eficazes em ocupá-los que muitos pais já usam como uma espécie de babá. "Os pais preferem que eles estejam conectados a estar nas ruas", constatou o psicólogo. Grande equívoco, segundo o psicólogo os pais pensam que de “uma forma ou de outra ele estaria mais protegido. Mentira. Ao contrário, ele está muito mais exposto”.

SONO

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A luz emitida pelos eletrônicos é prejudicial à qualidade do sono e, consequentemente, à saúde de um modo geral. Para a psicoterapeuta Myriam Durante, o resultado do estudo é preocupante e revela que as noites mal dormidas estão se tornando um problema crônico no Brasil. Ao Portal Boa Vontade, ela explicou que “a longo prazo esse jovem não vai conseguir guardar tudo o que processa durante o dia, pois a memória de longa duração é processada durante a noite, enquanto ele dorme. Por isso, ele tem que ter um repouso completo e reparador”.

Ela lembra que dormir mal contribui, e muito, para um ganho acentuado de peso, indisposição para atividades físicas, mau humor, reflexos diminuídos e dores de cabeça. “Eles ficam sentados o tempo inteiro. Já temos casos de trombose, que só aparecia em idade avançada, agora surgindo em adolescentes. Eles precisam se alimentar melhor, dormir melhor e fazer mais caminhadas”.

EMOCIONAL

nobullying.com

A mestre em saúde mental Luciana Nunes afirma que um dos pontos mais graves do vício é quando o uso excessivo da internet começa a comprometer as relações sociais, afetivas e profissionais. Segundo ela, "há uma falta de interesse em atividades fora da internet e tudo fica um pouco entediante. Até ir ao cinema, porque afinal de contas é mais fácil baixar o arquivo e assistir sozinho", destacou em entrevista ao Portal Boa Vontade. 

"A preocupação constante em estar online, irritabilidade quando é questionado sobre o tempo de uso, a utilização como meio de fugir de problemas emocionais, sociais", são alguns dos sintomas apontados pela psicóloga que retratam a dependência em internet. Ela pode afetar qualquer pessoa e em qualquer idade. Ainda segundo a especialista, entre os adolescentes "o sintoma clássico e o que chama muita atenção é o comprometimento com as atividades da escola, pois existe uma baixa no desempenho acadêmico. E esses jovens preferem ficar nos relacionamentos virtuais do que os relacionamentos presenciais", alertou.

OBESIDADE

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“Hoje em dia, as crianças passam o dia inteiro na frente da televisão ou do computador e tem uma alimentação com muitas calorias, existe uma chance muito grande de elas serem obesas”, afirmou a endocrinologista pediátrica Denise Ludovico. Sem contar que essas crianças acabam 'petiscando' lanchinhos nada saudáveis e ficam expostas à publicidade de produtos alimentares, induzindo-as à ingestão.

É muito importante que a alimentação seja controlada, pois é nesse momento que a criança precisa receber vitaminas para fortalecer o organismo, além de ser uma fase na qual a garotada cria os hábitos que continuam em grande parte da vida. Especialistas advertem ainda que a obesidade é a principal causa de diversas enfermidades na fase adulta.

Recomendamos que os pais coloquem limites quando seus filhos assistem e substituir o tempo de visualização por oportunidades para a atividade física e educativas.

INTELECTUAL

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O abuso da tecnologia causa dependência em crianças; vício atrapalha desenvolvimento infantil. A preocupação, portanto, se concentra nos jovens e nas crianças mais vulneráveis a esse tipo de dependência, principalmente pelo surgimento cada vez mais frequente dos jogos online.

"Quanto mais precocemente disponibilizo esse tipo de tecnologia a uma criança, maior é o comprometimento que vai haver", afirmou, em entrevista ao Portal Boa Vontade, o psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Programa Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, pioneiro nos estudos do tema no Brasil.

Apesar de ser bastante estimulado o uso da ferramenta entre os pequenos, pois auxiliam no desenvolvimento intelectual, essa utilização tão precoce também traz sérios problemas, inclusive para o desenvolvimento neurológico e fisiológico. "Várias pesquisas já mostraram, por exemplo, que se é dado um texto escrito em papel e o mesmo texto no computador, aqueles indivíduos que leem na tela vão ter um entendimento prejudicado em quase 50% [em comparação aos primeiros]".