Tráfico humano: o vilão que arranca milhares de crianças de suas nações

Wellington Carvalho

17/09/2015 às 17h04 - quinta-feira | Atualizado em 22/09/2016 às 16h04

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duas em cada três.

Separar-se de algum familiar por uma guerra é algo que leva qualquer pessoa a grande lamento. Contudo, muitos deixam de conviver sem nenhuma batalha declarada. O tráfico humano é o grande vilão e coloca todos os cidadãos de bem em alerta: em todo o mundo, a cada três vítimas de tráfico, uma tem menos de 18 anos — aumento de 5% entre 2010 e 2012, em relação ao período de 2007 a 2010. Dentre as crianças vitimadas, as meninas representam a maior parte: duas em cada três. A violência também se estende às mulheres, que representam 70% dos traficados.

Os dados são do Relatório Global 2014 sobre Tráfico de Pessoas, produzido pelo Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (UNODC). De acordo com o documento, a maior parte das vítimas são exploradas sexualmente, mas há também grande número de pessoas que sofrem por trabalho forçado. As porcentagens variam de acordo com a região. Na Europa e Ásia Central, 66% são vítimas de exploração sexual, enquanto 26% são forçados ao trabalho em regime de escravidão. A situação é inversa no Leste e Sul da Ásia e no Pacífico, onde 64% são vítimas de trabalho forçado e 26% de exploração sexual.

O relatório destaca que a impunidade continua sendo um problema sério: 40% dos países apontam apenas algumas ou nenhuma condenação para os traficantes e, ao longo dos últimos dez anos, não houve aumento perceptível na resposta da Justiça global a estes crimes, deixando parcela significativa da população vulnerável.

BRASILEIRINHOS EXPOSTOS

Ainda de acordo com o documento, no Brasil, cerca de 3 mil pessoas por ano são vítimas de tráfico para trabalho forçado e condições análogas à escravidão. Em 2010, constatou-se que 59 pessoas de nosso povo haviam sido traficadas para exploração sexual; o número aumentou para 145 em 2012. Parte das vítimas foi destinada à Europa.

Contudo, o número de alertas relacionados ao problema é mais gritante: em 2013, de acordo com o Disque 100 — serviço de atendimento telefônico gratuito —, foram contabilizadas mais de 27.664 denúncias sobre exploração sexual em todo o país. Em 2014, a cada hora, quase três denúncias de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes foram registradas. Além disso, de 2005 a 2012, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) encontrou 3.324 menores de idade em situação de risco nas estradas brasileiras.

E vale lembrar: quando não vulneráveis em espaços físicos, nossas crianças e jovens correm risco de entrarem nas lamentáveis estatísticas por meio da ação covarde de gente mal-intencionada que se utiliza da internet. O perigo também é on-line. Ao Portal Boa Vontade, o psicólogo e diretor de prevenção da Safernet no Brasil, Rodrigo Nejm, 33, afirmou que a exposição excessiva dos filhos na web é algo que os pais devem estar atentos, pois, muitos dos jovens acabam divulgando imagens próprias de conotação sexual: "Se o próprio adolescente divulga na rede esse tipo de imagem, certamente isso irá atrair a atenção de pessoas que não são amigas dele. Um criminoso sexual ou um agressor sexual, que está em busca de vítimas e de alguém mais vulnerável, vai se aproximar desse adolescente".

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Para fazer denúncias ou procurar ajuda, ligue para o Disque 100 (Disque Direitos Humanos).

DEFENDER ACABOU SENDO MEDIDA URGENTE

O assunto coloca em alerta até mesmo os Irmãos do Mundo da Verdade, a Pátria Espiritual de onde todos nós reencarnamos. Em mensagem publicada pela revista JESUS ESTÁ CHEGANDO!, edição 108 (p. 48), o nobre dr. Bezerra de Menezes (Espírito), Coordenador da Revolução Mundial dos Espíritos de Luz na Quarta Revelação, a Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo, alerta quanto à exposição excessiva: "Todos têm a oportunidade de corrigir os excessos, as exposições pessoais. Sejam mais comedidos, caríssimos Irmãos e Irmãs, menos expostos. Cuidado! A Humanidade se encarrega de destruir aqueles que se expõem demais quando por conta de assuntos particulares!".

Em contrapartida à vulnerabilidade, promover o acesso de crianças e jovens à educação é iniciativa que livra de diversos males, assim como erradicar a ignorância de muitos da sociedade quanto ao assunto. A gerente de comunicação e marketing da Plan International Brasil¹*, Mônica Souza, que compartillhou as experiências da entidade na defesa dos direitos infantojuvenis ao programa Sociedade Solidária²*, da Boa Vontade TV, ressalta que “lugar de criança é na escola, ela não tem que estar na rua ou nas praias trabalhando. Conscientizar a comunidade, trabalhar com ela, proporcionar seminários, mostrar o que acarreta o problema e trazer soluções, são oportunidades educativas". Por isso mesmo, lutar por condições mais dignas de existência, de modo que os pequenos não precisem começar a luta pelo pão de cada dia antes da hora, abandonando, assim, os estudos, é passo decisivo contra o tráfico humano.

Valorizar os direitos humanos tendo em vista o combate ao risco social é visão necessária que devemos ter para enfrentar o grave problema, como reforça a advogada Juliane Armede, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Combate ao Trabalho Escravo da Secretaria de Estado da Justiça e Defesa da Cidadania de São Paulo: "As possibilidades de solução por meio da prevenção, mais do que tudo, é garantir informação para as pessoas e fortalecer políticas públicas de base, (...) no que tange à oportunidade de acesso ao trabalho, condições de moradia, regularização dos estrangeiros, acesso à educação e à garantia de desenvolvimento para a família".

E vale destacar que quanto mais fortalecidas estiverem as famílias, mais difícil será afetar algum de seus componentes. Portanto, a integração entre pais e filhos, tios e sobrinhos, avós e netos, conservada em sadio relacionamento, sempre favorece a proteção material e espiritual de cada um; razão pela qual o jornalista, radialista e escritor Paiva Netto salienta em seu artigo Administrar é chegar antes:

Na vida pessoal ou coletiva, temos de saber, com honestidade, nos preparar para o amanhã. Daí o imenso valor dos pais, das mães e dos educadores. Repetidas vezes retomo o que declarei, em 1981, numa entrevista ao veterano jornalista italiano, radicado no Brasil, Paulo Rappoccio Parisi: administrar o próprio lar, entidades, empresas e nações é chegar antes. Isto é, com decisão e postura eficaz, procurar antecipar-se aos acontecimentos, evitando dificuldades ou mesmo estabelecendo correção de rumo ante os riscos que se anunciam, independentemente de tempo ou lugar. (...) No entanto, para a segurança e o desenvolvimento humanamente sustentado de qualquer organização, é essencial, por exemplo, que todos os seus componentes, de alto a baixo, aprendam uma grande ciência: a ciência do diálogo".

Proteger a juventude é dever de todos os cidadãos. Por isso, o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) está disponível 24 horas por dia, 7 dias na semana, para quem necessitar fazer alguma denúncia ou precisar de ajuda. A ligação é gratuita e não é preciso se identificar.
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¹* A Plan International Brasil desenvolve programas e projetos com o objetivo de capacitar e empoderar crianças, adolescentes e suas comunidades, para que adquiram competências e habilidades que os ajude a transformar a sua realidade. 

²* O programa Sociedade Solidária, da Boa Vontade TV (canal 20 da SKY e 212 da Oi TV), vai ao ar de segunda a sexta-feira às 18h30 e 23h30, e aos domingos às 6h30 e 20 horas. Para outras informações, ligue: 0300 10 07 940 (custo de uma ligação local + impostos), ou acesse Boa Vontade TV.

*Colaboração: Karine Salles.