Fórum da LBV conclui sua edição levando Esperança para enfrentar o novo coronavírus

Confira os destaques de cada palestrante no último dia do evento

Clara Botelho

20/10/2020 às 19h19 - terça-feira | Atualizado em 21/10/2020 às 11h53

Realizado nesta terça-feira (20/10), o Painel temático que concluiu a edição 2020 do Fórum Mundial Espírito e Ciência, da LBV, contou com a presença de cientistas, pesquisadores, religiosos e acadêmicos, que trouxeram suas contribuições sobre o tema: “Ciência e Fé: promovendo Esperança na pandemia do novo coronavírus”. Neste ano, o evento ocorreu em formato on-line, sendo transmitido em diversos idiomas, como inglês, espanhol e LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Confira a seguir os destaques de cada participação.

Fé e esperança: uma visão da religião de matriz africana

A primeira convidada a palestrar na noite de encerramento do Fórum foi Egbon mi Conceição Reis de Ogún, sacerdotisa das tradições de matriz africana, presidenta e coordenadora estadual do Instituto Nacional de Tradição e Cultura Afro-brasileira (Intecab-SP), ativista do Movimento Negro Unificado e membro do Grupo de Mulheres Axé do Brasil.

Sacerdotisa Egbon mi Conceição Reis de Ogún

Logo ao iniciar sua participação, a sacerdotisa saudou a todos oferecendo as bênçãos de sua cultura: “Olá, amigos! Estamos aqui hoje na sede do Intecab para falar um pouco de Ciência e Fé promovendo Esperança na pandemia do novo coronavírus. Eu sou das religiões de matriz africana, então eu peço licença para entrar nos lares de vocês tomando as minhas bênçãos. Meu Motumbá, meu Kolofé, meu Mukuiu, meu Àwúrê, meu Benuim, meu Saravá e meu Namastê. Sejam todos bem-vindos!”.

Durante suas explanações, Egbon abordou a importância da conexão com o Sagrado ao enfrentarmos diversos desafios durante a vida, principalmente no momento em que estamos vivenciando. Ainda, trouxe a necessidade de encararmos este período em coletividade, ajudando e prestando apoio a todos.

O que você fez para o seu próximo?” Porque o seu próximo não é só o seu amigo, o seu inquilino, o seu parceiro, a sua companheira, mas o próximo também é aquele povo que mora na rua, também são as crianças abandonadas, também são aquelas pessoas que estão no último minuto da morte e você vai levar um sorriso, um olhar de esperança, uma caridade. (...) Caridade é você poder pegar na mão daquele que está precisando, é você olhar com olhos de amor e isso as religiões de matrizes africanas, dentro das comunidades de terreiro fazem isso diariamente, que é passar não somente a fé, mas também passar a esperança, a esperança de dias melhores, a esperança que a cura vai vir. Talvez não venha naquela proporção que você espera, talvez não venha à jato, mas ela vem munida com a sua fé, ela vem juntamente com a suas preces.”, destacou.

O olhar budista a respeito da morte e da pandemia

Para dar sequência ao painel temático do evento, o monge budista Ricardo Mário Gonçalves contribuiu com a discussão, trazendo seu conhecimento a respeito do budismo e sobre como essa vertente religiosa compreende a pandemia e como encara a questão da morte. O palestrante é integrante da Verdadeira Escola da Terra Pura, doutor e livre-docente em História pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Associação Religiosa Nambei Honganji Brasil Betsuin.

Monge Ricardo Gonçalves

O monge, ao iniciar sua fala, trouxe breve visão histórica para conduzir à questão da pandemia, reiterando como o mundo já sofreu muitas situações parecidas e, mesmo assim, acaba por não compreender a lição que esses momentos nos trazem:

Nós construímos uma grande civilização, somos tomados, às vezes, de orgulho e arrogância como senhores do mundo, senhores da natureza, agora, de vez em quando vem essas catástrofes, essas calamidades, mostram que não é nada disso, apesar de todas as nossas realizações científicas e técnicas, como nós somos frágeis, não é? Como uma ‘coisinha pequenininha’, invisível, aparece de repente e provoca tanta doença, tanta morte, tanta dor. E isso, nos remete já ao Budismo, um dos ensinamentos básicos do Budismo, é a impermanência de todas as coisas, nada é permanente, nada é estável, tudo está sujeito a mudança, transformação, e vida e morte, no fundo, são uma coisa só. A morte, nada mais é do que o outro lado do fenômeno que nós chamamos de vida. Se nós recebemos a vida, recebemos a morte como parte do pacote, não podemos esquecer isso e a pandemia nos vai fazer relembrar essa lição.”  

Luto e perda: papel da religiosidade e da espiritualidade

Em seguida, o Fórum recebeu Marta Helena De Freitas, doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e professora adjunta da Universidade Católica de Brasília (UCB), atuando no programa de mestrado e doutorado em Psicologia. A palestrante, também, possui pós-doutorado pelo Departamento de Estudos Religiosos, da Escola Europeia de Cultura e Línguas, da Universidade de Kent em Canterbury, Reino Unido, e pelo Programa Doutoral em Psicologia da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, Portugal.

Professora Marta Helena de Freitas

Na ocasião, a doutora dialogou sobre o tema do evento, com o recorte: “luto e perda: papel da religiosidade e da espiritualidade”. A convidada contou um pouco sobre sua área de pesquisa e iniciou sua fala com um belo poema, que expõe a importância de não encarar o luto como um processo solitário.

(...) falar de luto e perda não é apenas falar de solidão, mas é sobretudo, falar de solidariedade humana. A sensibilidade ela não está em oposição com a Ciência. A sensibilidade anda de mãos dadas com a Ciência, porque a Ciência passou a existir no mundo justamente em decorrência da preocupação de buscar soluções para os problemas humanos.”, destacou Freitas.

Ainda, ao decorrer de sua fala, a pesquisadora estabelece importante ligação entre religiosidade e a espiritualidade como auxílio no enfrentamento do luto, contribuindo com o indivíduo no encontro de sentido para aquilo que está vivendo: “(...) a subjetividade de cada um e a forma como organiza essa Espiritualidade e essa própria demanda e encontro de sentido é que vai levá-lo [o ser] a encontrar as suas próprias formas de respostas, que pode ser pela religiosidade, na crença do transcendente; pela Religião, naqueles mecanismos de crenças que são compartilhados e que envolve também a crença no transcendente e que pode envolver outras buscas também na Arte; na Solidariedade Humana; na Ciência; no contato com a natureza”.

Relação mente-cérebro e existência da alma

Para dar sequência ao ciclo de palestras do evento, o dr. Alexander Moreira-Almeida contribui com suas explanações a respeito da relação mente-cérebro e da possibilidade da mente ou da alma existir além do cérebro. Ainda, Alexander comentou sobre sua área de pesquisa, que investiga experiência de pós-morte e de alegadas memórias de vidas passadas e comentou como a Espiritualidade pode auxiliar no enfrentamento das dificuldades do dia a dia, especialmente nos momentos desafiadores da pandemia.

Dr. Alexander Moreira-Almeida

O palestrante é professor de Psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), fundador e diretor do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes) e coordenador das sessões em Espiritualidade e Psiquiatria da Associação Mundial de Psiquiatria e da Associação Brasileira de Psiquiatria. 

Em sua fala, o professor destrincha sobre dados do aumento da religiosidade no mundo e no Brasil e conta sua experiência de pesquisa em que une a Espiritualidade e a Saúde: “(...) os estudos do Nupes e outros do mundo inteiro apontam da seguinte forma: que de um modo geral, na média, as pessoas mais religiosas, com maior envolvimento religioso ou espiritual tendem a ter melhor saúde física e mental. Os dados mais consistentes são de que para o envolvimento religioso se relacionam com menores níveis de depressão ou recuperação mais rápida de um quadro depressivo, também com menores níveis de tentativa ou cometimento de suicídio, menores níveis de uso ou abuso de álcool e outras drogas e também menor mortalidade geral, e além disso, melhor qualidade de vida e bem-estar”.

Como estabelecer o diálogo entre saúde mental e religião?

Para concluir a edição deste ano do Fórum Mundial Espírito e Ciência, da LBV, os participantes acompanharam as reflexões do psicólogo clínico e professor emérito de Psicologia na Universidade Estadual de Bowling Green (Ohio, EUA), Kenneth Pargament.

O palestrante é uma das maiores autoridades no estudo entre religião e saúde mental do mundo, sendo autor do livro The Psychology of Religion and Coping: Theory, Research, Practice [Psicologia da Religião e coping: teoria, pesquisa e prática], considerado “a melhor referência de seu gênero para terapeutas no exercício de sua profissão”.  

Professor Kenneth Pargament

Logo no início o psicólogo comenta brevemente de como a pandemia do novo coronavírus afeta muitos fatores da nossa saúde, seja ela mental ou física, e complementou: “Fomos abalados não apenas física, psicológica, social e existencialmente. Fomos sacudidos espiritualmente. A Covid-19 levantou profundas tensões, questões e conflitos sobre o que consideramos sagrado. Chamamos esses conflitos de “lutas espirituais”. (...) o trauma cria efeitos destrutivos em parte porque abala as pessoas até o âmago, e o âmago possui um componente espiritual”.

Kenneth explica que há diversos tipos dessas “lutas espirituais”, mas, em suma, esse termo diz respeito a sentimos que o indivíduo possui ao se relacionar com o Sagrado, seja raiva, punição, abandono, dúvida, reivindicação, subversão, entre outros aspectos. Segundo o psicólogo, pessoas que não passam por essas “lutas” possuem uma melhor relação com a Espiritualidade e têm melhores índices de saúde mental.

Além disso, o estudioso destacou que “(...) para restabelecer o espírito humano, precisamos promover uma perspectiva guiada pela esperança. Quando nos sentimos sem esperança, os recursos religiosos e espirituais podem ser fontes importantes de uma perspectiva guiada pela esperança, que nos sustenta em tempos difíceis, nos ajuda a deixar de lado nossa dor e nossas perdas e nos impulsiona para um futuro recém-imaginado. Num estudo com adultos que lidam com o estresse do coronavírus, descobrimos que os recursos de enfrentamento religiosos e espirituais positivos foram especialmente úteis para pessoas que estão vivenciando uma grande sensação de desesperança. Aqueles que tiveram perspectivas mais esperançosas foram capazes de alcançar um bem-estar maior”.

Sobre o evento

Criado em 2000 pelo diretor-presidente da Legião da Boa Vontade, o jornalista e escritor José de Paiva Netto, o Fórum Mundial Espírito e Ciência, da LBV, visa estimular a implementação de propostas no campo pragmático das realizações da sociedade civil, trazendo as contribuições das diversas áreas do saber espiritual e humano para a construção de uma sociedade mais solidária, altruística e ecumênica.

Para mais informações, acesse a página oficial do Fórum Mundial Espírito e Ciência, da LBV!