Religião e Ciência sob análise histórica

Apoio mútuo entre esses ramos do saber pode ser maior do que se pensa

Larissa Brugnolo e Josué Bertolin

02/05/2018 às 19h26 - quarta-feira | Atualizado em 10/05/2018 às 14h52

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Por vezes, o senso comum pode levar algumas pessoas a crer que existe um abismo instalado entre Ciência e Religião, pois seriam áreas totalmente opostas. Entretanto, historiadores têm estudado de perto o vínculo entre o conhecimento científico e o religioso e fornecido novas perspectivas ao debate da polêmica questão. A despeito de muito se afirmar que essas áreas do conhecimento mantêm permanente conflito entre si, tem-se concluído que suas trajetórias estão intimamente ligadas. Para tratar do assunto, a revista BOA VONTADE conversou com renomados pesquisadores, entre eles o professor John Hedley Brooke, da Universidade de Oxford, nos Estados Unidos; o professor Peter Harrison, diretor do Instituto de Estudos Avançados em Humanidades da Universidade de Queensland, na Austrália; e o professor Ronald Numbers, da Universidade de Wisconsin-Madison, nas terras norte-americanas.

A seguir, alguns trechos dos proveitosos esclarecimentos desses estudiosos.

TESE DA COMPLEXIDADE VERSUS TEORIA DO CONFLITO

Ronald Numbers — Tem havido, por aproximadamente um século, interesse na relação entre a Ciência e a Religião, e, por muito tempo, a narrativa-padrão foi a de conflito e guerra [entre essas áreas]. Robert Merton [1910-2003], apesar de sociólogo, escreveu um estudo histórico, em 1938, sobre a relação entre a Religião e a Ciência na fundação da Real Sociedade Britânica, mostrando um vínculo muito mais compatível. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial — quando vimos, pela primeira vez, historiadores profissionais da Ciência sendo capacitados [nesse campo de estudo] —, vários deles escreveram sobre esse tema, e a maioria não focou em conflitos ou guerras. Cerca de quarenta anos atrás, vários historiadores da Ciência começaram a se dedicar a essa pesquisa. Eles analisaram ou reanalisaram episódios que envolviam as duas [áreas] e verificaram que a história era bem mais interessante do que os conflitos ou guerras em si. Era, como se veio a constatar, uma relação complexa. Não que se negue o conflito — sabemos que houve rivalidade em vários níveis, desde o institucional até o psicológico —, mas, em geral, a Religião ajudou a Ciência.

Peter Harrison — A Teoria do Conflito, em essência, é a visão de que, ao longo da História, a Ciência e a Religião, por sua própria natureza, estarão [sempre] em atritos. Agora, podemos contrastar essa percepção com a visão da maioria dos historiadores da Ciência, que rejeita essa rixa. Eles dizem que [tal rivalidade] é uma generalização simplista e exagerada e que, quando analisamos contextos históricos específicos, bem como diferentes localizações geográficas, o que vemos é uma grande variedade de maneiras pelas quais a Ciência e a Religião interagiram no passado, tantas vezes muito positivamente, [apenas] de modo ocasional em conflito. Acredito que a maior parte dos historiadores agora concorda com o que poderíamos chamar de visão da Complexidade, que considera complexas as relações entre a Ciência e a Religião.

“O que a Religião intui um dia a Ciência comprovará em laboratório. Ciência sem Religião pode tornar-se secura de Alma. Religião sem Ciência pode descambar para o fanatismo. Por isso, na época ideal que todos desejamos ver surgir no horizonte da História, a Ciência (cérebro, mente), iluminada pelo Amor (Religião, coração fraterno), elevará o ser humano à conquista da Verdade.”

 

PAIVA NETTO

Idealizador e fundador do Fórum Mundial Espírito e Ciência, da LBV.

O CASO DE GALILEU

John Hedley Brooke — O julgamento de Galileu [1564-1642] é exemplo famoso [dessa visão simplista de apenas contrapor a Ciência à Religião em determinado fato histórico e ignorar todos os contextos da ocasião]. É muito tentador ver esse julgamento somente como um conflito entre a Ciência e a Religião. De fato, foi negada a Galileu a liberdade de propor a Teoria Copernicana. Existiu um elemento de conflito ali, mas também houve questões políticas profundas [em torno desse episódio]. E é preciso ver que esses aspectos políticos — nesse caso, a contrarreforma — poderiam ter consequências sobre a maneira pela qual o trabalho científico foi julgado. Ao se reduzi-lo ao conflito apenas, perde-se a maioria das coisas realmente interessantes.

Ronald Numbers — Em muitos relatos, o pobre Galileu é arrastado até Roma [capital da Itália], jogado numa cela, torturado quase até a morte e forçado a renegar seus pontos de vista. Depois, vai embora sussurrando: “E, no entanto, ela se move” [referindo-se ao movimento da Terra]. [Essa versão] É uma boa história! Mas sabemos agora, a partir de cuidadosa pesquisa histórica — realizada por especialistas em Galileu e feita nos arquivos que não estiveram abertos por muito tempo —, ser quase certo que ele nunca foi preso nem torturado. Talvez ele tenha sofrido psicologicamente, mas não tortura física. E não há razão para acreditar que ele tenha temido por sua vida. Foi julgado culpado e sentenciado à prisão domiciliar.

A INFLUÊNCIA DA RELIGIAO NA CIÊNCIA

John Hedley Brooke — Se você estudar a afiliação religiosa de alguns dos grandes pensadores científicos do século 17, [poderá notar que] é impressionante como muitos deles certamente viam seu trabalho científico quase como um dever religioso. [Eles queriam] Descobrir a Arte, a Sabedoria, o Poder de Deus na criação. Em particular, penso que, na Filosofia Natural e na História Natural da Revolução Científica, o que os cientistas frequentemente buscam são generalidades — o que chamamos hoje de leis da Natureza. Eles acreditavam firmemente que essas regularidades atestavam a fidelidade de Deus ao mundo que Ele criou. Então, você pode depender da existência dessas regras, se preferir, ou leis da Natureza. (...) [O pensamento religioso] É, por exemplo, uma fonte importante do conceito de Lei da Natureza. E, se você analisar um cientista como Isaac Newton [1643-1727], fica muito claro que ele entendeu suas leis do movimento e a lei da gravidade como expressões do Poder e da Onipresença de Deus na Natureza. Newton tem a visão muito forte de que o espaço é constituído pela Presença de Deus.

DESCOBERTAS QUE ALIEM CIENTISTAS E RELIGIOSOS

Peter Harrison — O que as pessoas estão tentando fazer agora é ver se existem padrões locais de interação ou generalizações de média escala que podem ser feitas sobre as relações históricas entre a Ciência e a Religião. Minha pesquisa histórica concentra-se principalmente no período em que a Ciência se estava desenvolvendo, nos séculos 17 e 18, e tenho uma série de teorias. Aliás, o que observamos nessa época é que há uma relação positiva muito forte entre a Ciência e a Religião. A Religião fornece pressupostos, motivações fundamentais; dá legitimidade social ou valor à atividade científica. Na verdade, eu chegaria a dizer que, se não fosse pelos fatores religiosos durante aquela época, não teríamos Ciência da maneira que temos hoje. Então, há uma espécie de história que se pode contar a respeito do passado, que nos leva além da complexidade.

União de esforços

Cumprindo a avançadíssima missão do Parlamento Mundial da Fraternidade Ecumênica, o ParlaMundi da Legião da Boa Vontade, localizado em Brasília/DF, seu idealizador e fundador, José de Paiva Netto, criou, em 2000, o Fórum Mundial Espírito e Ciência (FMEC). Por meio desse espaço de debate fraterno, cientistas e religiosos têm compartilhado seus pontos de vista acerca de diversos temas, inclusive sobre a relação entre os respectivos ramos de atividade. Aliás, há décadas, o diretor-presidente da LBV defende a união desses saberes, conforme se lê no artigo “Deus é Ciência”, no qual afirma: “(...) Religião é Ciência, Ciência é Religião. Ambas devem honrar a Ciência Moral, que tem pelas criaturas o mais elevado respeito, não as considerando instrumento para fanatização nem reles cobaias. O pensamento, quando altamente sectário, pode sustentar rancores que ensombreçam os olhos da Alma de geniais cerebrações. Aliadas, muito além poderiam fazer pelos povos sequiosos de um mundo melhor”.