A Ciência é delas

O sucesso da equipe liderada por pesquisadoras brasileiras que, em 48 horas, fez o sequenciamento genético do novo coronavírus

Leila Marco e Josué Bertolin

06/10/2020 às 16h30 - terça-feira | Atualizado em 06/10/2020 às 16h41

Vivian R. Ferreira

Embora já fosse um nome respeitado no meio científico, a imunologista Ester Cerdeira Sabino ganhou notoriedade quando a equipe capitaneada por ela e pela cientista Jaqueline Goes de Jesus divulgou, em 28 de fevereiro de 2020, o mapeamento genético do novo coronavírus apenas 48 horas depois da detecção do primeiro caso da doença no Brasil.

A dra. Ester — que é professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP e coordenadora do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde) — ressalta que não se trata de sorte, uma vez que Ciência demanda tempo e investimento contínuo. Para a especialista, tudo isso só foi possível porque o grupo estava formado e preparado.

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Paulistana, nascida em uma família de médicos — um avô e uma tia-avó foram profissionais da área, além do próprio pai e da mãe —, o contato com a área da Saúde aconteceu ainda criança. Ela se formou em Medicina pela Universidade de São Paulo e já àquela altura queria fazer pesquisa, “mas era um período bem mais difícil”, conta. O desejo só se realizou anos depois, após um treinamento que fez nos Estados Unidos.

Uma das convidadas do Fórum Mundial Espírito e Ciência (FMEC), da LBV, que, neste ano, se realiza nos dias 19 e 20 de outubro em sessão on-line, em virtude dos cuidados com a Covid-19, a dra. Ester concedeu entrevista exclusiva à Super Rede Boa Vontade de Comunicação (Rádio, TV, internet e publicações). No bate-papo, ela explica como foi possível essa resposta imediata no que diz respeito ao sequenciamento do novo coronavírus, destaca a importância de recursos e apoio às universidades e ao ensino em geral e convoca as novas gerações de mulheres a olhar, com carinho, para as carreiras ligadas à pesquisa e à Ciência.

Arquivo Pessoal

BOA VONTADE — Como começou na área científica?
Ester Sabino
— Eu trabalhei no Instituto Adolfo Lutz no início da minha carreira e fazia plantão. Sou pediatra de formação e comecei os estudos no início da epidemia do HIV, meu foco foi o vírus e, com a bolsa que consegui nos Estados Unidos para estudar esse agente, algo bem parecido com o que faço agora, que é sequenciar as primeiras cepas, pude entender a diversidade e como está sendo transmitido.

BV — A senhora participou de um dos primeiros grupos que pesquisaram o HIV. Como foi essa experiência?
Ester Sabino
— Quando se tem um agente novo, é preciso entender o vírus, o seu impacto. Naquela época, foi bem mais difícil fazer o sequenciamento e entender a diversidade, entender que o vírus era parecido com o americano, mas tinha algumas diferenças. Ao voltar ao Brasil, o programa de Aids estava começando a ser instituído, e ajudei no estabelecimento da carga viral aqui no país, isso para os laboratórios fazerem o sequenciamento [do vírus] e entenderem a resistência dele aos remédios. Depois, comecei a trabalhar com a doença de Chagas, outro problema grande em banco de sangue de HIV e que é pouco estudada, negligenciada, grave e que só tem um medicamento.

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BV — Como foi possível fazer o sequenciamento do novo coronavírus em dois dias?
Ester Sabino — Nos últimos anos, eu estava estudando mais doenças negligenciadas e também um pouco de arboviroses* por causa da epidemia do Zika [a partir de 2016], isso fez aumentar os recursos para a pesquisa. A Ciência depende de dinheiro, não existe milagre. Com essa verba que veio, grande parte dela de fora do país, conseguimos manter esse grupo, que está bastante ativo desde então, estudando epidemias de arboviroses, que são os vírus transmitidos por mosquito. Com isso, nós nos preparamos para o que aconteceu em janeiro, estávamos com a tecnologia montada.  Quando os primeiros vírus foram detectados pelo Instituto Adolfo Lutz, estávamos com tudo pronto. (...) [Outro fato é que] A gente fez várias tentativas de melhorar a tecnologia, baratear o custo, para colher um grande número de amostras de dengue. A nossa expectativa era de que neste ano teríamos uma epidemia de dengue como foi a do ano passado. Por conta desse projeto, pudemos desenvolver uma grande ligação com pesquisadores europeus e recebemos deles, em janeiro, os testes e os primers [reagentes] necessários para fazer a detecção e o sequenciamento do novo coronavírus.

Arquivo Pessoal

BV — O que representa esse sequenciamento do genoma do novo coronavírus?
Ester Sabino
— Ao fazer isso, definem-se as letrinhas que compõem o genoma de qualquer agente viral, sua composição, ou seja, o genoma, o DNA ou o RNA — no caso desse vírus, é RNA —, determinam-se ainda exatamente a ordem e quais são as mutações ou as possíveis mutações que pode ter, o que ajuda a compreender vários aspectos. Isso vai dizer a origem do vírus, pode dar uma ideia de quando e como se espalhou no país. Dá também uma noção se o vírus está muito diferente do que o que será usado para uma cepa vacinal. Se [os cientistas] encontrarem remédio, o sequenciamento pode achar alguma mutação que impeça o medicamento de funcionar. Serve para definir se existe algo a ser feito nos testes diagnósticos. Depois que sequenciamos o primeiro caso, continuamos a estudá-lo e, recentemente, fizemos uma publicação maior, com mais de 400 ocorrências. Nessa análise, ficou claro que houve várias entradas, linhagens, pessoas com vírus levemente diferentes uns dos outros que entraram no Brasil. Mas, de todas essas situações, apenas três conseguiram se fixar e gerar uma cadeia de transmissão. Duas entraram via Região Sudeste e uma pelo Ceará. As três vieram da Europa e chegaram [aqui] provavelmente no fim de fevereiro e começo de março.

BV — Esse trabalho ajuda no tratamento e no estabelecimento de vacinas?
Ester Sabino — A Ciência é feita por pequenos blocos. É o conjunto que vai dar uma resposta. Então, não é isso que gera a vacina, mas, para quem está a desenvolvendo, é importante saber quão diverso é o vírus. A boa notícia é que ele é pouco diverso, o que é uma dificuldade, por exemplo, no caso do HIV, para o qual é difícil fazer uma vacina.

Diego Ciusz

BV — Como vê a contribuição da Ciência brasileira nesta pandemia? 
Ester Sabino — É importante que se valorize as universidades, o ensino, a pesquisa... Temos muita gente treinada, podendo fazer boas pesquisas, mas isso depende de recursos, como já falei. Neste momento de pouco recurso, precisamos colocá-lo, principalmente, na Ciência, [que] é uma área que tem de ser prioritária no país. E isso será fundamental para não precisarmos do auxílio de outros países. Essa epidemia mostrou isso, ficamos dependendo da produção de teste de diagnósticos e de respiradores. São coisas que temos de ter a capacidade de produção local.

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BV — Gostaria de deixar um recado de incentivo aos novos pesquisadores, especialmente às meninas e mulheres?
Ester Sabino
— Acho que as mulheres precisam estar mais engajadas na Ciência. Eu vejo cada vez mais alunas. Então, [o meu desejo é que] fiquem um pouco mais na universidade, estudem, que pelo menos tentem, aprendam, e verão como a Ciência é um caminho muito legal. É difícil, mas interessante, e, no final, a gente se diverte bastante cada vez que aprende, que descobre algo novo. Se realmente quisermos um país melhor, será preciso mais cientistas.

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*Arboviroses — Doenças causadas pelos chamados arbovírus, como os vírus causadores da dengue, do Zika vírus, da febre Chikungunya e da febre amarela. Nessa classificação, estão todos os males transmitidos por artrópodes, como insetos e aracnídeos.