A importância de dizer ‘não’ aos filhos

Disciplinar a criança em casa sempre que necessário evita que ela sofra ao ser repreendida pelo mundo

Wellington Carvalho

20/04/2017 às 07h41 - quinta-feira | Atualizado em 20/04/2017 às 14h50

“Mas mãe, porque não podemos levar esse tablet?!”. Poderia ser outro pedido, como o de comprar um videogame novo, continuar no computador até alta madrugada ou ir na casa de um amiguinho no horário designado para outra tarefa. Por mais que pareça difícil, dizer não para os filhos é necessário, e ajuda a evitar complicações sérias na vida dos pequenos, agora e quando forem adultos.

Algumas pesquisas mostram, por exemplo, que profissionais da geração Y (que representa os nascidos na década de 1980 até meados de 1990), apesar de serem mais qualificados para o mercado de trabalho, são mais frustrados por sua dificuldade em lidar com o “não”. Eles reagem negativamente ao passarem por situações incômodas e não se dão bem quando suas sugestões são descartadas.

À Super Rede Boa Vontade de Comunicação (Rádio, TV, Internet e Publicações), a mestre em Educação Tania Zagury, que também é filósofa e professora de Psicologia da Educação, explica que “quando, desde pequeno, não se ensina ao filho que há coisas que ele pode fazer e outras não, ele se tornará uma pessoa que não compreende a sociedade”.

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Educadora Tania Zagury.

De acordo com a especialista, se não repreendida e devidamente disciplinada, com amor, a criança pode crescer com um comportamento inadequado para as interações sociais, como em relação aos amigos da escola, e acabar vivendo as consequências disso no futuro. Afinal, nem sempre ganhamos, e não saber ouvir o "não" é tão importante quanto ter disciplina para estudar para as provas da escola. 

Ajudar os filhos a lidar com as frustrações e orientá-los sobre o que é razoável ou não os torna mais seguros e flexíveis. E mais: desenvolve neles a capacidade de saber se defender do que não faz bem e impor seus próprios limites. “É exatamente esse o trabalho dos pais: mostrar aos filhos que nem sempre o ‘sim’ será possível. Com isso, estarão dando raízes profundas para as crianças se tornarem pessoas capazes de dizer 'não' também, como para recusar o convite às drogas”, exemplifica Tania.

As crianças precisam saber que suas atitudes têm consequências e que elas não podem fazer tudo o que quiserem. Por isso, os pais precisam ter em mente que “a incivilidade delas começa a se formar quando os pais ficam penalizados ao dizer ‘não’.” 

Aliás, por conta de culpas da vida moderna, como não passar tanto tempo assim com as crianças, existe a tentação de sempre dizer sim à compra de todo e qualquer bem material que o filho peça para aliviar sua própria consciência. Um exemplo disso é quando compramos um celular de última geração para presenteá-los, mesmo que o outro ainda esteja funcionando e não haja real necessidade da aquisição. Pensar mais na satisfação da criança do que em educá-la sobre um consumo consciente, por exemplo, pode formar cidadãos que não valorizam o que têm e acabam por querer sempre mais. 

Tania ressalta que “dar limites não é dizer ‘não’ para tudo. É dizer ‘não’ para o que é necessário dizer ‘não’ e ‘sim’ para tudo o que é possível dizer ‘sim’”. Comer uma quantidade adequada de doces na semana, por exemplo, não é nada condenável, como muitos nutricionistas explicam. Porém, é um erro permitir que a criança coma apenas doces sem lhe incentivar à ingestão de refeições saudáveis. Explicar a elas o porquê da negativa também é importante neste contexto, para não parecer que é apenas uma atitude punitiva ou algo sem razão.

Afinal, pensemos mais sobre o caso citado no parágrafo acima: se a criança apenas comer doces, terá problemas sérios em sua saúde, como o diabetes. Daí percebemos que dar limites é também zelar do bem-estar do filho, ainda que ele não compreenda isso e reclame com choros, birras e “pirraças”. É livrar de possíveis sofrimentos que podem ser evitados.

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Jesus, o Educador Celeste, nos deixou um bom exemplo sobre a importância de dizer ‘não’ quando se encontrou com a mulher adúltera no momento em que ela seria apedrejada (Evangelho do Divino Mestre, segundo João, 8:1-11): A acolheu com afeto, perdoando e demonstrando que a conduta dela e daqueles com as pedras nas mãos precisavam ser corrigidas. Em outras palavras, educou as pessoas envolvidas naquela situação dizendo ‘não’ às ações que praticavam.

Educadora Suely Buriasco

Daí notamos que podemos repreender os erros dos filhos sem agressividade. Contribuindo para o assunto, a educadora Suely Buriasco destaca que “a verdadeira autoridade é mansa. Os pais que a possuem não precisam bater, gritar, fazer chantagem ou serem violentos. Aqueles que têm autoridade cobram com calma e determinação; assim é que são respeitados. A maneira correta é sempre conversar, esclarecer, e aí sim disciplinar com a afetividade — que não se pode esquecer”.