Violência contra a mulher: quais os impactos psicológicos e sociais?

Nathan Rodrigues

11/04/2017 às 15h24 - terça-feira | Atualizado em 19/04/2017 às 17h03

O Brasil já deu importantes passos para combater a violência contra a mulher, como a promulgação da Lei Maria da Penha e aumento do número de Delegacias da Mulher. Mas, infelizmente, ainda está longe de sanar esse problema.

De acordo com a edição 2015 do Mapa da Violência, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), com base em dados de 2013 do Ministério da Saúde, mais de 95 mil mulheres brasileiras ~ jovens e adultas ~ foram vitimas de violência. O estudo revelou ainda que 55,3% desses crimes foram cometidos no ambiente doméstico e 33,2% dos homicidas eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.

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Não à toa, o país tem uma taxa de feminicídio* de 4,8 homicídios por cada 100 mil mulheres. Essa é, conforme estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), a quinta maior do mundo.

Por isso, amigos, ainda precisamos falar sobre violência contra a mulher.

IMPACTOS PROFUNDOS

O assunto é sério e exige que nós, enquanto cidadãos, não o encaremos com frieza, sem dar a devida atenção que ele pede. Quer uma prova? Uma pesquisa da Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Público, mostrou que dois em cada três brasileiros dizem ter presenciado, no ano passado, algum ato de violência física ou verbal contra uma mulher no bairro em que moram. Conseguem visualizar isso? Segundo o estudo, uma mulher ~ que mora perto de você ~ foi vítima de violência e outra pessoa ~ que também mora próxima à sua casa ~ presenciou isso.

E os impactos dessa ação são muito mais profundos do que se imagina. A violência contra a mulher traz consequências negativas nos âmbitos físico, psicológico e até social. "Os impactos são de grandes ordens", ratifica a professora mestra Maria Fernanda Terra, especialista no tema. "É possível distinguir uma mulher que sofre violência pelo modo como ela anda na rua", comenta.

A vítima, explica a professora, tem"dificuldade de trabalhar, de ter uma relação de amizade, não vai sorrir com tanta frequência. Ela vai ter dificuldades em se relacionar numa sociedade."

As consequências são tão fortes que chegam a afetar toda a família. "As crianças sofrem violência quando as mães sofrem violência. Elas podem não apanhar, mas estão vendo as mães sofrerem. Muitas delas voltam a fazer xixi na cama, mesmo com 5 ou 6 anos, têm dificuldade de se desenvolverem na escola, se tornam agressivas, querem fugir de casa", destaca.

A lógica não é muito difícil de ser entendida, amigos. Se uma criança cresce num ambiente hostil, vendo, enquanto cresce, sua mãe ser violentada, assimilará esse tipo de comportamento e muito provavelmente será um adulto violento. O ciclo não é interrompido, pelo contrário, ele continuará existindo. Percebem a gravidade da questão?

O QUE FAZER?

O passo mais importante é denunciar qualquer tipo de violência contra a mulher. Ela pode ser feita em qualquer delegacia e ainda há organizações que protegem e buscam os direitos das vítimas. A já citada Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, garante punições a quem agride uma mulher em âmbito doméstico ou familiar e mostrou uma evolução significativa nos registros de denúncias, por intermédio da Central de Atendimento à Mulher, o Disque 180.

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Maria da Penha Maia Fernandes é uma biofarmacêutica brasileira que tornou-se líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres. Após sofrer violência doméstica, seu caso favoreceu que em 7 de agosto de 2006 fosse sancionada a Lei Maria da Penha, na qual há aumento no rigor das punições às agressões contra a mulher, quando ocorridas no ambiente doméstico ou familiar.

Em entrevista exclusiva à Super Rede Boa Vontade de Comunicação (Rádio, TV,  Internet e publicações), a farmacêutica bioquímica Maria da Penha Fernandes — que inspirou a criação da Lei 11.340/06, após ficar paraplégica pelas agressões do próprio marido — falou sobre aplicação da Lei. "(...) Nas grandes e médias capitais [a Lei] funciona com bastante rigor, mas precisamos ter um olhar especial para as pequenas cidades".

Outra medida tão importante quanto a denúncia é o nosso comportamento em relação à mulher que sofreu a violência. Não devemos, em hipótese alguma, julgar a pessoa, mas procurar entender como ela se sente, quais são seus anseios e como podemos ajudá-la. O julgamento acaba por afastar a vítima e isso não colabora em nada com a situação. "Colocar-se à disposição é muito importante. A denúncia ajuda a pensar estratégias e suporte para ela, mas a mulher, muitas vezes, está tão abalada que é bom que alguém esteja ao seu lado, mesmo no momento da denúncia", afirma Maria Fernanda.

Esse apoio, completa a professora, é tão necessário que, sem o incentivo de um terceiro, muitas mulheres desistem de denunciar o parceiro ou o agressor por medo de verem a família se desintegrar, perdendo a guarda do filho, por exemplo, ou por vergonha da situação.

O jornalista, radialista, escritor, Paiva Netto, também diretor-presidente da Legião da Boa Vontade, em seu artigo Combate à violência contra mulheres e meninas, publicado na revista BOA VONTADE Mulher, de março de 2013, faz importantes apontamentos acerca da valorização da mulher: "O assunto impõe-se como pauta inadiável nas agendas de governos e do Terceiro Setor. Na Legião da Boa Vontade, fazemos votos de que o sucesso acompanhe as iniciativas que visam proteger e valorizar as mulheres e as meninas. No Brasil e no mundo, as ações que surgirem para dignificá-las não só aplaudiremos, mas estaremos juntos. Defender as mulheres, as meninas, por consequência os homens, os meninos, enfim, a Vida desde o útero materno, é atitude em perfeita consonância com os objetivos de nossa atuação: vivenciar e propagar a eficiência desta mensagem de Paz trazida ao mundo pelo Ecumênico Jesus".

A violência contra a mulher é um problema de todos! E aí, #BoraMudar esse quadro?

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* Feminicídio é o homicídio de mulheres em decorrência de conflitos de gênero, geralmente cometidos por um homem, parceiro ou ex-parceiro da vítima. Esse tipo de crime costuma implicar situações de abuso, ameaças, intimidação e violência sexual.