Arte e engajamento

Simone Barreto

17/07/2012

  • Foto: Fábio Guimarães/Extra/Agência O Globo
Com mais de cinco décadas de trabalho no teatro, na TV e no cinema, o ator e diretor Milton Gonçalves tornou-se também referência na luta pelos direitos humanos, especialmente em favor dos afrodescendentes. Ele próprio lembra que no início da carreira, nos idos de 1950, sofrera preconceito. Apesar disso, persistiu e hoje é considerado um dos maiores artistas brasileiros, tendo contribuído com seu exemplo para derrubar a regra segundo a qual o negro só podia interpretar papéis de menor expressão ou de escravo e empregado.

Não foi tarefa fácil, mas graças ao seu talento e personalidade, o ator logo se impôs e, assim, pôde dar vida a personagens de destaque. Com a qualidade do trabalho, superou o sentimento de intolerância. A vitória pessoal não o acomodou, pelo contrário: incentivou-o a também participar de movimentos por justiça social, em especial da militância pelos direitos dos negros. “Que as pessoas acreditem nas suas potencialidades, que podem e devem mergulhar e realizar aquilo que o seu sonho diz. Acreditar, acreditar! A gente pode transformar este país”, defende ele, convicto.

A origem humilde de Milton Gonçalves é um orgulho para o ator, acostumado na vida a vencer desafios. Filho de catadores de café, nasceu em Monte Santo, Minas Gerais, em 9 de dezembro de 1933. A fim de tentar dias melhores, a família se mudou para a capital paulista, onde o pai se tornou pedreiro, e a mãe, empregada doméstica.

Antes de conhecer o teatro, teve várias ocupações. Ainda bem jovem, cuidou de crianças, aprendeu os ofícios de sapateiro, alfaiate e gráfico. O primeiro trabalho profissional foi na peça infantil O Soldado de Chocolate. Pouco tempo depois, Milton interpretou um preto velho na peça Ratos e Homens*¹ (1956, adaptação do livro homônimo de John Steinbeck), oportunidade dada pelo diretor Augusto Boal (1931-2009), do Teatro de Arena de São Paulo. Ali conviveu com importantes nomes daquela grande escola cênica, a exemplo de Gianfrancesco Guarnieri, Lima Duarte, Chico de Assis, Riva Nimitz.

Ao longo da carreira, são mais de 100 filmes e mais de 50 peças de teatro; na televisão, teve participação em muitos seriados, minisséries, casos especiais e em cerca de 40 novelas. Nesta entrevista, Milton Gonçalves fala sobre o que aprendeu na vida, a profissão e a magia que é para ele a arte de representar.

BOA VONTADE — Ainda novo, teve de trabalhar, passou por várias profissões...
Milton Gonçalves —
Naquele tempo você podia trabalhar mesmo sendo menor. Eu comecei a trabalhar com 6 anos de idade e não parei até hoje. Trabalhei em fábrica, em sapataria, móveis de vime, farmácia, e em cada lugar aprendi alguma coisa.

BV — Como descobriu a vocação para representar?
Milton — Desde menino, eu ia muito ao cinema, porque a minha mãe me incentivava. O cinema era o único contato que tinha com um sonho, eu e milhares de jovens, e ficava criando coisas, sonhando com o que poderia fazer; daí veio essa coisa de trabalhar como ator. Eu diria que a qualidade para ser ator é a capacidade de fingir, de criar coisas na sua cabeça, desenvolver e não ter amarras... Naquele tempo não entendia isso, naturalmente, mas desde menino sonhava muito; ia ao cinema e guardava aquelas imagens, gostava daquilo.

BV — Quando o teatro entrou em sua vida?
Milton — Eu trabalhava numa gráfica, e um belo dia veio o Leonel Cogan, que disse: “Olha, vamos imprimir um convite”, e quem imprimiu o material fui eu. E aí pedi ingressos para ele, e eu e um amigo assistimos ao espetáculo A Mão do Macaco, que me impressionou muito, pois estava acostumado com o cinema. Você entra no cinema, apaga a luz, e se joga naquela imagem ou ela se joga sobre você... Mas quando vi lá gente de carne e osso, num palco com uma cortina que se abriu, ali se operou um milagre: me convenci de que aquilo era verdade, fiquei apaixonado. E na vez seguinte o Leonel chegou lá e disse: “Você gostou?”, eu respondi: “Não só gostei, sou capaz de fazer”.

BV — Após essa descoberta, o que aconteceu?
Milton — Fui para o teatro amador com o Leonel. Depois fui com um amigo — que Deus já o tem ao Seu lado —, o Egídio Écio, que naquela época ensaiava uma peça infantil. Então, fiquei com ele aprendendo os rudimentos de cenografia, de iluminação, de maquiagem... O sujeito que fazia o rei na tal peça começou a faltar, e todas as vezes que ele faltava, o Egídio pedia para ensaiar no lugar dele, lendo as falas por causa dos outros atores e atrizes. Um belo dia, o Egídio falou assim: “Você vai fazer o personagem!”, e eu disse: “Você ficou louco? Olha bem para mim e para a princesa!”. Ela era loiríssima, olhos azuis, como eu ia fazer o pai dela? Ele me respondeu: “Não... nós temos um maquiador aí sensacional”. Ficava com o maquiador horas e horas me besuntando a cara, colocava uma roupa com jabô [espécie de gravata abotoada à camisa], luvas, meias, e eu virava o Al Jolson*2 [às avessas]. (...) As crianças não entendiam aquilo. Até que um dia, em Santo André, eu decidi: “Agora não dá mais”, e foi aí que Deus costurou essa coisa muito bem e fui para o Teatro de Arena, porque o ator Sérgio Rosa me contou: “Tem um diretor que está chegando dos Estados Unidos e vai montar uma peça chamada Ratos e Homens, de John Steinbeck, e ele está precisando de um ator negro para fazer o Cruz”.

BV — Essa foi sua grande oportunidade?
Milton — Sim. Esse diretor recém-chegado dos Estados Unidos era o Augusto Boal, no teatro do Renato José Pécora, mais conhecido como Zé Renato, que me acolheu no Teatro de Arena, com o qual viajei, levando os spots, o material de cena, interpretando, e aí encontrei muita gente bacana, maravilhosa, como o Vianinha, o Guarnieri, o Flávio Migliaccio, Dirce Migliaccio, Vera Gertel, mais tarde o Henrique César se incorporou ao grupo, e o Nelson Xavier, que veio depois que se formou na Escola de Arte Dramática. (...) Eu mergulhei de cabeça no Teatro de Arena, onde fiquei muito tempo, melhorei o meu aprendizado; a partir dali, passamos a viajar, a fazer espetáculos pelo Brasil. Minha formação básica foi lá; a televisão não possuía a importância de hoje. Fizemos [no Teatro de Arena] seminário de dramaturgia, de interpretação, e até discutimos em alguns momentos os rumos do país, com muita pretensão.

BV
  • Foto: Priscilla Antunes
  • Crianças atendidas pela LBV no Rio de Janeiro homenageiam o ator Milton Gonçalves
  • Crianças atendidas pela LBV no Rio de Janeiro homenageiam o ator Milton Gonçalves
— Foram muitas as dificuldades?

Milton — Só havia dificuldades. Era um ator negro, para quem eram destinados os papéis de escravo, aqui ou lá, e no Teatro de Arena eu fiz de um tudo. Foi muito louco... de repente, encenando uma peça de Maquiavel que o Guarnieri fazia no Rio de Janeiro e teve que voltar para São Paulo, eu o substituí. E isso foi fundamental para mim. Que as pessoas acreditem nas suas potencialidades, que podem e devem mergulhar e realizar aquilo que o seu sonho diz. Acreditar, acreditar! A gente pode transformar este país.

BV — No cinema, que trabalho mais o emocionou?
Milton — Todos me emocionaram, porque a todos eu me entreguei. Fiz um filme chamado A Rainha Diaba [1974], que obviamente criou muita discussão. Nele, interpretava um chefe de quadrilha, de drogas, um homossexual. Outro longa-metragem que marcou (com o qual ganhei os quatro melhores prêmios de cinema na época) foi Eles não usam black tie [1981]. Esse filme, quando exibido no Festival de Veneza, foi aplaudido, segundo dizem, por quinze minutos.

BV — É uma consagração!
Milton — Ainda hoje, quando vejo o filme, sou remetido àquele tempo em que a gente tinha o prazer da luta, da discussão cultural. Lembro daquilo que não conseguimos fazer, a exemplo de uma lei que seja para todos. E pode acreditar, quando vejo o filme e, lá no final, a Fernanda Montenegro e o Guarnieri falam sobre o personagem, me remeto a alguns amigos que perdi, negros, de quem ninguém fala... ninguém conta a história dos negros que morreram durante a resistência.

BV — Que mensagem gostaria de deixar para nossos leitores?
Milton — Tenham muita fé! Eu acredito no Grande Arquiteto do Universo, creio que Ele nos provê de paciência, carinho, afeto, amor, respeito, esperança. Se você não tiver esperança, é um sujeito morto. E tem que lutar, brigar e manter a ética, a moral e a fé.

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*1 Ratos e Homens — A obra, de 1937, do romancista John Steinbeck (1902-1968), Ž atŽ hoje um dos livros mais lidos do autor. ƒ sobre a amizade e a situa‹o de pessoas marginalizadas e exploradas pelo sistema, sem fam’lia e sem posses, que lutam fazendo bicos em fazendas da Calif—rnia durante a recess‹o econ™mica nos Estados Unidos, na dŽcada de 1930. Apresentando personagens cativantes e realistas, o escritor fala de sentimentos comuns a todo ser humano, como a solid‹o e a ‰nsia por uma vida digna.

Al Jolson (1886-1950) — Cantor e ator lituano que se consagrou nos Estados Unidos, no cinema e na mœsica. Protagonizou o filme O Cantor de Jazz (1927) e se tornou famoso por se apresentar com o rosto pintado de preto.